Uma jornalista nos bastidores da Administração Pública

.

Existem poucas obras descritivas da vida na Administração Pública baseadas em  experiências reais ou mesmo vividas pelo próprio autor. Tenho o privilégio de ter duas na minha biblioteca pessoal:

A Gestão na Administração Pública. Usos, costumes, manias e anomalias, de Paula Silveira e Nelson Trindade, Editorial Presença, Lisboa, 1992.

Para onde vai o nosso dinheiro. Uma jornalista nos bastidores da Administração Pública de Lurdes Feio, Ésquilo, marca editorial da Eranos – edições e multimédia, Lisboa, 2012.

Tratando no presente post apenas desta última, é de dizer que se refere a um conjunto de situações que a autora, no quadro de uma colaboração que prestou a um serviço da Administração Pública, foi identificando, e até vivendo pessoalmente, ou que lhe foram narradas como se tendo passado em outras entidades públicas, num total de 56  quadros, que deram origem a outros tantos pequenos capitulos do livro.

Na sua maioria são situações de incumprimento de deveres ou abuso de facilidades que envolvem funcionários de todos os grupos de pessoal, inclusive de pessoal dirigente, e que lesam em maior ou menor grau o Estado. Com a agravante de que em diversos casos, vindo  a hierarquia a ter conhecimento das situações, não reagia, quando não as abafava.

Tendo organizado o meu percurso profissional na Administração de forma a percorrer vários Ministérios, organismos e funções e aceitando diversos níveis de responsabilidades sou forçado a confirmar a tendência para que se verifiquem situações do tipo das descritas, embora seja raro que se verifiquem cumulativamente e haja casos em que são activamente contrariadas.

Creio não atraiçoar a abordagem de Lurdes Feio quando destaco entre  as determinantes comuns da maioria das  situações que denuncia o síndrome do patrão ausente,  a  alegada dificuldade em despedir, e a falta de avaliação, aliada à prática de sobrecarregar os funcionários cumpridores, aliviando os outros.

O livro está  valorizado com um prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa, que, referindo que colabora com a Administração Pública desde 1970 e a integra ininterruptamente desde 1972, afirma “…encontro na presente obra muitas referências ou evocações que me são familiares. Mesmo se sinto a falta de outras que o não são menos” e ainda “E admito que tenho, instintiva ou inconscientemente, uma capacidade de aceitação maior do que a da autora, feita de muito ter visto e de algo ter propendido a atenuar ou  a relativizar.”

Por mim diria que não se trata de um problema de legislação nem de posição política dos dirigentes.

Também, é bom recordar (embora a autora, Lurdes Feio, viesse de um meio profissional  mais dinâmico) que este tipo de ambiente também pode surgir no privado (“patrão fora dia santo na loja”) sobretudo em ambiente de escritórios – e a função pública é afinal um grande complexo de escritórios  –  e que os trabalhadores do privado já efectivos podem igualmente ter tendência, em certos contextos, a “encostarem-se” em especial  se há precários para cima dos quais pode ser descarregado o trabalho. Entretanto  conheço pelo menos um caso no privado em que um desvio de dinheiro em montante que constituía já crime público foi desvalorizado pelos patrões, investidores estrangeiros.

.

O livro de Lurdes Feio, de quem sou, com muita honra, amigo no Facebook,  veio a ser publicado em 2012, numa altura em que estava aberta a época de caça ao funcionário público, mas certamente merece interesse.

Duvido é que o encontrem por aí à venda, as editoras são pouco responsáveis para com os autores, e o meu exemplar comprei-o por três euros numa das feiras do livro períódicas a que podemos assistir  na Gare do Oriente…

.

Anúncios

Sobre ivogoncalves

66 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Esta entrada foi publicada em Cidadania, Gestão. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s