Os jornalistas (ainda) são assim ?

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Do livro de Jack London, Sol Ardente  (Burning Dayligth), publicado em 1910. Edição da Livraria Civilização, 1977, Porto, tradução de Daniel Augusto Gonçalves.

Sol Ardente é um homem que enriquece como mineiro no Alasca e  se radica na Califórnia, onde entra em choque com os grandes financeiros.

De um herói do Alasca foi transformado num fanfarrão do Alasca, mentiroso, sem princípios e de um modo geral um ‘celerado’. Não bastando isso, fabricaram-se mentiras de toda a casta a seu respeito. Ele nunca respondia, embora de certa ocasião se desse ao incómodo de dizer o que pensava a meia-dúzia de repórteres.

-É fartarem-se, rapazes, disse-lhes. Sol Ardente já teve de haver-se com coisas piores do que as vossas imundas folhas mentirosas. E eu não vos censuro, rapazes, pelo menos até um certo ponto…Vocês não podem fazer outra coisa. Têm de viver. Há por esse mundo uma data de mulheres que vivem de modo parecido com o vosso porque não são capazes de fazer nada melhor. Alguém tem de fazer o trabalho sujo e porque não hão-se ser vocês ? São pagos para remexer na podridão e, como para arranjar trabalho limpo é mister ter espinhaço direito, continuam a refocilar na gamela” (p. 201)

Mais adiante,

Não me venha falar de moralidade e de dever cívico, replicou a um entrevistador persistente. Se você amanhã largar o seu emprego e for trabalhar para outro jornal, escreverá justamente o que lhe mandarem escrever. Agora você defende a moralidade e o dever cívico; no novo emprego estaria a defender as ladroeiras de um caminho de ferro em nome da moralidade e do dever cívico, hem ? O seu preço, meu rapaz é pouco mais de trinta dólares por semana. É esse o seu preço de venda. Mas o seu jornal vende-se um pouco mais caro. Se lhe pagarem o que ele hoje pede, pode ter a certeza de que não hesita um instante em mudar a sua pútrida orientação actual por outra orientação qualquer, igualmente pútrida; mas sem nunca deixar de proclamar que o faz em nome da moralidade e do dever cívico.

E tudo isto porque nasce um tanso por minuto. Enquanto o povo estiver disposto a aguentar, há-de comer o que lhe quiserem dar.” (pp. 206-207)

Houve uma altura em que pensámos que as coisas estavam a mudar. Será que voltámos 105 anos atrás ?

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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