CGD: o inquérito que falta

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Os extensos inquéritos parlamentares relativos ao BPN e ao BES, e os ainda mais extensos processos judiciais relativos ao BPP e ao  BPN  (não haverá processo Dias Loureiro, parece, porque não houve investigação) devem ter incutido no público português  a impressão tranquilizadora de que, embora nada se consiga prevenir  em matéria de escândalos bancários, tudo acaba por se  saber.

A impressão é ilusória, pois que, por um lado, é admissível que, nestes ilustres exemplos, a corda já tivesse esticado anteriormente sem partir, e que, por outro, se quis ignorar o caso da Caixa Geral de Depósitos que  viu, durante anos, a sua situação financeira degradada por actos de gestão de duvidosa razoabilidade, e teve de ser recapitalizada   pelo Estado, quer por atribuição de dotações de capital, quer por subscrição de CoCo ‘s  ainda não reembolsados.

Os relatórios da actual administração da CGD lá vão aludindo discretamente a situações do passado sem que tenha havido um inquérito parlamentar (possivelmente porque todo o “arco da governação” esteve envolvido)  e já poucos se lembram que a CGD teve de vender as suas participações no BCP, PT e Cimpor e a própria Fidelidade, em condições muito pouco desejáveis.  Sim, nalguns destes casos houve imposições da “troika”, mas ela sabe bem o que encontrou.

O curioso é que uma grande parte das operações que deitaram abaixo a Caixa foram feitas “à vista de toda a gente” e  tiveram a ver com o financiamento de  aquisições de acções  do BCP,  visando  uma alteração das condições de exercício do poder numa instituição de crédito emblemática conotada  com a Opus Dei,  acabando por se assistir à mudança de dois administradores do banco público financiador – o presidente Carlos Santos Ferreira e o administrador Armando Vara – para a administração da instituição visada, presumivelmente com o apoio dos accionistas que beneficiaram do financiamento.

Ninguém foi preso, nem quando o valor do BCP e o valor das garantias dadas à CGD  entraram em franca deterioração.

Sobre outras operações igualmente ruinosas, em Portugal e em Espanha,  parece ter-se feito um prudente silêncio.

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António Guterres (de que julgo Carlos Santos Ferreira é amigo pessoal)  foi 0 responsável  por  ir promovendo o trio dos seus chamados “escudeiros” : Luís Patrão,  que veio a ser seu chefe de Gabinete e mais tarde Secretário de Estado, José Sócrates e Armando Vara. Três razões pelas quais eu não votaria Guterres para presidente.

Para situarmos melhor Luís Patrão   veio a estar ligado à chamada Fundação para a Prevenção e Segurança com  Armando Vara e um  tal Lopes Barreira, estes dois últimos condenados no Face Oculta, ambos com recurso interposto.

Quando Sócrates foi empossado como primeiro ministro em 2005 pareceu-me a sua solução de governo mais sólida que a de Guterres, não só pela presença de três Ministros de Estado com personalidade  (Luís Campos e Cunha, Freitas do Amaral, António Costa,  foi sol de pouca dura e daí a dois anos não restava nenhum) , mas também pela não inclusão   de Armando Vara e Luís Patrão, “expelidos” anteriormente por Sampaio por causa do assunto da Fundação.

Ficaram todavia com lugares chave, e afinal com mais poder do que se estivessem no Governo,  no financiamento aos empresários, Armando Vara na CGD e Luís Patrão na presidência do Turismo de Portugal.

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José Sócrates tem grandes simpatias e antipatias, Luís Patrão ninguém o conhece, Vara parece ser universalmente detestado, talvez por vir de baixo. Agora está outra vez no centro de suspeitas.

Teria sido preferível, mais uma vez,  que a investigação tivesse sido feita na hora.  Vai ser muito difícil, sem se ter uma visão de conjunto da CGD na era Sócrates, apurar factos e valorar comportamentos.

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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Uma resposta a CGD: o inquérito que falta

  1. Ricardo diz:

    Subscrevo a vontade de tal inquérito sobre a CGD.

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