Superior privado: o Sindicato que aos 25 anos perdeu a memória

O Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup) entregou já ao Secretário de Estado do Ensino Superior o “seu” projecto de regime do superior privado, ao que parece como forma de evitar o seu debate, e a sua votação na generalidade e na especialidade, em Conselho Nacional.

Depois de uma primeira página pseudo-jurídica em que se explica que o público está a convergir com o privado (…) vai-se ao texto e descobre-se que os deveres dos docentes do privado têm uma formulação própria, distinta da dos docentes do público. Consequências de se ter construído este regime a partir de uma proposta de regulamento interno da Lusófona.

Admirem o “dever” seguinte:

Artigo 9º

g) ” Participar nas actividades da instituição, nomeadamente acontecimentos científicos e acções de extensão cultural

Ainda há poucos anos (2006) o então Director do Instituto Superior de Gestão emitiu uma ordem de serviço obrigando o pessoal docente de todas as áreas científicas a fazer figura de corpo presente nuns denominados “Seminários de Investigação” sem qualquer validação científica, para inglês ver, sob pena de marcação de faltas injustificadas, e a Administração instaurou  processos disciplinares com vista a despedimento a duas colegas que protestaram publicamente contra o abuso, uma das quais a delegada sindical do SNESup Ana Olímpia Brito.

As colegas portaram-se maravilhosamente, o SNESup tentou estar à altura, no apoio jurídico, na organização de depoimentos de apoio – por exemplo o da Colega Teresa Alpuim, Professora Catedrática da área, o do Colega João Cunha Serra, dirigente da FENPROF, que enfatizou as recomendações da UNESCO sobre a liberdade académica – na denúncia da situação amplamente feita na Ensino Superior – Revista do SNESup, dirigida por Paulo Peixoto, também Presidente da Direcção do SNESup.

http://www.snesup.pt/cgi-bin/artigo.pl?id=EEZAEVZEEuAWmQKjiq

http://www.snesup.pt/cgi-bin/artigo.pl?id=EEZAEVZElprLvdjBNs

E quando as penas – de suspensão – foram conhecidas os delegados sindicais do SNESup das mais diversas escolas do país protagonizaram um gesto inédito, e desde aí não reeditado: no primeiro dia da suspensão choveram telefonemas na Administração do Instituto Superior de Gestão, para falar com uma e com outra das colegas. As secretárias da administração apenas conseguiram dizer que não estavam…

O assunto nem sequer teve de ir a Tribunal: meses depois o Grupo Lusófona comprava o Instituto Superior de Gestão e o SNESup obtinha  a pura e simples revogação das penas de suspensão pela nova Administração, com o assentimento do Director…

Uns anos depois, já  comemorados os 25 anos de existência, que pelos vistos iniciaram a fase da senilidade sindical e da perda de memória, são os actuais “Directores” do SNESup, que se portam aqui como patrões em potência, a exigir ao Governo que faça uma lei a transformar o abuso em dever.

—-

Deixo-vos com o corpo do delito cometido pela colega Ana Brito, ou seja a carta ao Director que tornou pública e deu origem ao processo disciplinar:

A investigação deve ser feita com genuína vontade
Sr. Director do ISG
Caros colegas

………………………………………………………..

Tudo na nossa vida deve ser feito com genuína vontade.
A investigação também.
A pergunta que faço é:
Que investigação é essa onde se obrigam as pessoas a estarem presentes em seminários contra sua vontade?
O que passará cada seminário a ser?
Um espectáculo?
O que seremos nós? Figurantes?
Deveremos bater palmas? Quando?
Repito… A investigação deve ser feita com genuína vontade e com prazer. É tão simples!
Não deve haver numa Escola digna desse nome actividades mais nobres do que outras.
A investigação é uma actividade nobre.
Ensinar é uma actividade nobre.
O serviço administrativo é uma actividade nobre.
Dirigir o ISG é uma actividade nobre.
Desempenhe-a com nobreza Sr. Director.
Trate bem as pessoas.

………………………………………………………..

Com os melhores cumprimentos,
Ana Olímpia Brito

Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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