Reeditar Rocha Martins

Rocha Martins, escritor, jornalista, autodidacta, sócio da Academia das Ciências, monárquico liberal activo durante a I República, deputado durante o Sidonismo, antisalazarista, é autor de larga obra publicada, que só muito recentemente começou a ser reeditada.

http://arepublicano.blogspot.pt/2013/06/rocha-martins-contra-o-poder-escrever.html

http://pedroalmeidavieira.com/indexbh.asp?p/785/1089//R/1723/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Jos%C3%A9_da_Rocha_Martins

Adquiri recentemente   Sidónio Pais, Ídolo e Mártir da República, que se lê com muito interesse, mas só recentemente descobri no site da Bonecos Rebeldes  que esta também havia editado o Regicídio (que vai em segunda edição), Pimenta de Castro, Ditador Democrático, e A Monarquia do Norte, I e II.

http://www.bonecosrebeldes.com/itens_main.php?page=2&fam=275&cat=all

Tendo também escrito  sobre Bocage, foi Rocha Martins, segundo se lê em O Cinema sob o Olhar de Salazar,  Círculo de Leitores, 2001, consultor de Leitão de Barros no Bocage assinado por este (1936).

Parece estar esquecida uma importante trilogia do autor, publicada, não por acaso, durante a segunda guerra mundial:

Integram  esta trilogia:

O Bichinho de Conta, Editorial Inquérito, Lisboa, 1942 (uma obra com este  título fora já publicada em 1928, conforme se vê nos trabalhos para os quais coloquei link, mas na edição de 1942 não há  referência a esta circunstância)

Batalha de Sombras, Editorial Inquérito, Lisboa, 1943;

Coração Português,  Editorial Inquérito, Lisboa, 1946.

O Bichinho de Conta passa-se na época da perseguição aos Távoras e suas relações, durante a qual o Marquês de Pombal terá procurado impor o casamento com um filho seu a uma jovem, Isabel Juliana, que estava comprometida com o filho de um dos perseguidos.  Batalha de Sombras  põe em cena a geração seguinte na ocasião da embaixada de Lannes, com Pina Manique a combater a influência das ideias francesas. Coração  Português , com alguns personagens dos dois livros anteriores, decorre em Lisboa, no tempo da ocupação de Junot, com algumas montarias nocturnas a  franceses isolados e ecos do desassossego das províncias, sobretudo a partir do levantamento do General Sepúlveda em Bragança.

A versão portuguesa da  tese de doutoramento de Teresa Caillaux de Almeida, radicada em França,   Memória das ‘Invasões Francesas’ em Portugal (1807-1811), Ésquilo, 2010,  omite estas duas obras no quadro da página 126 dedicado aos romances históricos inspirados pelas invasões, o que tem de ser imputado à falta de reedições e à ainda relativa debilidade da historiografia relativa ao Século XX.

Sobre a sua motivação para escrever este último livro, diz Rocha Martins:

“Coração Português” tem, como os romances seus predecessores, uma história que passo a narrar. No período em que a Europa sofria a terrível invasão dos bárbaros exércitos germânicos, pretendi descrever, através da enorme publicidade de um grande jornal – o “Diário de Notícias” – a dolorosa existência da nossa pátria, a que fôra, outrora, quando vi calcadas as pátrias alheias.

Foi esse o meu formal propósito, sobretudo depois de ter começado a propagar-se, em certos meios, até intelectuais, que uma nação vencida, como a França estava, visto ter-se submetido e perdido a guerra, não tinha direito a revoltar-se e, por consequência, eram muito bem e justamente fuzilados os patriotas.

Tão grande dislate, protérvia ou infâmia, originou o romance que se vai ler. Não sei se consegui o meu fim; conservo, porém, sinceramente, a intenção que me animou a escrevê-lo. O leitor perdoará se errei ou não conseguir convencê-lo de que o direito de rebelião é nobre e justo sob os vexames, os abusos, as tiranias.

Evoquei a minha pátria ao sentir vilipendiadas as pátrias alheias, e sofri com elas e assim devem ter padecido os meus humildes avós, nas horas terríveis da invasão que encarei, de forma perturbada e agitada, enquanto rugia o cataclismo que devastava o mundo.”

 A Editorial Inquérito ainda existe, mas não tem reeditado estes livros, e no seu stand na última Feira do Livro nem sequer havia memória do autor. E contudo até se conseguiria construir com base nestas obras uma ou mais séries televisivas.

Nos últimos anos abri várias vezes Coração Português na página onde se lê este diálogo

“- A terra é nossa; quem a pisa pela fôrça…

– Ficará bem aconchegadinho nos seus torrões.”

Infelizmente, desta vez, fomos nós que  convidámos a pisá-la.

Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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