“O Cérebro da Política”, uma conferência de Joana Amaral Dias

Na passada  6 ª feira, 10 de Outubro, no ISCTE-IUL, Joana Amaral Dias fez uma conferência no   âmbito do Programa Doutoral em  Ciência Política que esteve  aberta também a estudantes de mestrado e de licenciatura bem como a qualquer interessado. Sala cheia, uma hora para a apresentação, uma hora para colocação de questões, tempos muito reduzidos para o tratamento dos temas abordados, quando André Freire conta com tantos alunos brilhantes.

Das muitas pistas para reflexão lançadas por Joana Amaral Dias, retenho, com riscos de trair a conferencista neste resumo, a alegada aceitação implícita, por toda a esquerda, da qualificação do processo vivido nos últimos anos como de “austeridade”, “resgate”, “ajuda externa” que envolveriam a ideia de “necessidade” e de “inevitabilidade” .

A referência a “austeridade” fez-me sorrir, uma vez que no lançamento da sua colectânea de artigos “Austeridade, Democracia e Autoritarismo” já André Freire havia sentido a necessidade de justificar o título, e que eu próprio já tinha reagido aqui à utilização do termo.

https://ivogoncalves.wordpress.com/2011/11/21/empobrecer-sim-mas-devagar/

Não deixei na altura de assinalar que o próprio Passos Coelho, que já tinha anunciado querer  ir para além da troika, preferiu falar de “empobrecimento”. Possivelmente uma forma de construir a imagem de um político que fala verdade aos portugueses.

Sem me pretender qualificar eu próprio em Psicologia Política, deixo aqui a ideia de que “empobrecimento” não suscitou a reacção de revolta que seria de esperar porque os destinatários PROCURARAM NÃO TOMAR CONHECIMENTO da mensagem implícita, preferindo “austeridade” por  estar associada às  ideias de “transitoriedade” e de “reversibilidade”, correspondentes aliás a experiências históricas mais recentes, como a do recurso ao FMI em 1983.

Para os tirar desse torpor, foi preciso a proposta de alteração das taxas da TSU, transferindo directamente dinheiro dos bolsos dos empregados para os dos seus patrões, medida que nem estes, pelo menos abertamente, reivindicavam. Por esses dias  a direita portuguesa voltou a ser “a mais estúpida da Europa”, como se dizia no primeiro decénio da democracia (ultimamente é a esquerda portuguesa que tem merecido  esse qualificativo). E a reacção  possível num país em que a força dos sindicatos nas empresas está como está foi a participação no 15 de Setembro de 2012. Como mostrou Pedro Lains, a partir daí mudaram as percepções sobre o processo. E, poder-se-ia dizer também, o Governo entrou  num percurso errático até à demissão de Vítor Gaspar e de Paulo Portas, momento de possível viragem, que a esquerda e os movimentos sociais não puderam ou não quiseram aproveitar.

Na abordagem de Joana Amaral Dias houve, parece-me, uma injustiça para o PCP, que procurou efectivamente cunhar um termo diferente de “austeridade”. Enquanto a ouvia, estive alguns minutos a tentar recordá-lo. O “Pacto de Agressão”. Aparentemente não colou, isto é, não passou para a linguagem corrente dos destinatários. Razões ?

Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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