BES – Quanto vale a Coisa (isto é, o novo banco) ?

Se de facto a denominação Novo Banco foi registada pelo BCP (estaria a pensar dividir-se num BCP – bom e num BCP – mau ? ) é melhor falarmos do “valor da Coisa”.

A Coisa, se corresponde ao BES – bom, deve ter uma situação líquida positiva, aliás espero que o BdP não a dispense de fazer um balanço de início de actividade, reportado a 4 de Agosto de 2014. Vai ser dotada de um capital social integralmente subscrito pelo Fundo de Resolução, com base em recursos próprios deste e em recursos emprestados a este pelo Tesouro, pelos quais o Estado Português está a pagar juros à troika e cujo capital  posteriormente reembolsará.

Portanto, a situação líquida da Coisa em 4 de Agosto corresponderá à soma da situação líquida herdada do BES-bom  com o valor da capitalização subscrita pelo Fundo de Resolução.  Apesar de a situação líquida do BES-bom ser, creio, positiva, esta capitalização é necessária por razões específicas da actividade bancária, isto é, a garantia de determinados rácios de liquidez.

Se pensarmos que no fim do processo, cuja duração se prevê mediar entre 6 meses e 2 anos, terão de ter entrado no Fundo de Resolução as importâncias necessárias a reembolsar este do capital subscrito e do respectivo custo (os 2,8 % da Dra. Maria Luís Albuquerque) então devemos concentrar a nossa atenção na evolução da almofada correspondente à parte da situação líquida herdada do BES, cujo valor ainda não está em definitivo apurado.

Essa almofada vai ter de suportar

– os prejuízos naturalmente emergentes da exploração bancária, que nas actuais condições se tem revelado deficitária na maioria das instituições e que, mantendo-se as condições do 1º semestre, poderão ser novamente na ordem das centenas de milhões de euros,

– algumas opções tomadas  no lançamento do novo banco – por exemplo, a não retenção da marca BES (que ainda há dias sugeri aqui que se mantivesse,  suprimindo o “Espírito Santo”) e que o Doutor Pedro Celeste muito bem criticou no Dinheiro Vivo, a ausência de uma estratégia definida – o novo banco perde por um lado racionalidade económica que lhe dava a inserção num grupo, e por outro lado está na defensiva, “mais forte”, “mais seguro”, e “à venda”-  a falta de uma gestão profissional que domine o negócio bancário, a falta de um verdadeiro accionista (a Coisa não é do Estado nem de ninguém, o patrão de facto é o regulador) ;

o desconto que terá de ser concedido a quem  queira comprar a Coisa .

O desconto será tanto maior quanto a única alternativa considerada para o destino da Coisa é ser vendida. O Dr. Leonardo Ferraz de Carvalho fez em tempos no Independente uma excelente caracterização da negociação entre o Dr. Augusto Mateus e a SONAE para a compra da Torralta.   Os nossos liberais, que não são liberais mas sim fanfarrões, dificilmente negociarão melhor.

Num cenário  neutro,  o Fundo de Resolução poderá ser ressarcido (e pagar ao Tesouro), mas duvido que qualquer comprador que vise o controlo tenha capacidade financeira  para simultâneamente reembolsar as importâncias aplicadas e reinjectar novos fundos. Será provável que o Fundo e o Tesouro venham a ser pagos escalonadamente.

Num cenário pessimista, o Fundo de Resolução será chamado a fazer novas dotações de capital, com cobertura em contributos dos bancos (felizmente há regras europeias, que talvez evitem as dificuldades judiciais que foram levantadas no caso do BPP ao ressarcimento dos investidores pelo respectivo fundo), sendo provável que o Tesouro seja chamado a co-financiar.

Poderia, e talvez deveria, ter sido considerado um cenário optimista, em que a situação líquida inicial da Coisa antes da capitalização pelo Fundo de Resolução fosse representada por um conjunto de acções B temporariamente sem direito a voto ou a distribuição de dividendos e não transaccionáveis a não ser em agrupamento com as acções A detidas pelo Fundo de Resolução,  fossem colocadas em carteira pelo  BES – mau ou repartidas  entre os seus accionistas  não ligados à família Espírito Santo. O não se ter ido para um tal cenário é sugestivo.

Será constitucionalmente discutível, creio,  que

–   a expropriação sem indemnização dos accionistas tenha ido, aparentemente,  além do que era  necessário;

– o Governo tenha feito uma reunião (por correio electrónico ? por video conferência ?, por espírito santo … de orelha ?) para atribuir valor normativo aos avisos do Banco de Portugal em matérias em que as decisões deste conflituam com a legislação geral em vigor.

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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5 respostas a BES – Quanto vale a Coisa (isto é, o novo banco) ?

  1. Excelente Nuno Ivo Gonçalves e se permite vou partilhar. Coloca uma questão, entre muitas outras, ao de leve, que eu percebo mais não vi ainda contas feitas. Por que razão 4.9 mil milhões de euros e não outro valor qualquer? Ou seja, chegou-se a este valor porquê, como e com que objetivos?

  2. Pingback: Pela Blogosfera – Comunicar | A Educação do meu Umbigo

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