Novamente, sobre João Ferreira do Amaral e o euro

Pensei durante muito tempo escrever um segundo post sobre este tema, depois de João Ferreira do Amaral ter publicado o seu livro, mas acabei por firmar a convicção de que este é um debate prejudicado pela percepção que cada um julga ter dos seus interesses. Os que nada possuem, e que nem sequer têm emprego, teriam   interesse, a prazo, numa retomada do crescimento económico e das exportações induzidos pela desvalorização da moeda, mas não estão em condições de seguir o debate ou de influir na decisão. Os que têm as suas empresas, ou os seus haveres, “internacionalizados” (para usar uma palavra suave),  podem definir estratégias de adaptação que minimizem eventuais prejuízos   ou até lhes permitam tirar partido da evolução, caso se acabe por sair do euro. Quem tem poupanças investidas em imobiliário ou confiadas ao sistema financeiro nacional, bem como quem  tenha (ainda) emprego, nem quer ouvir falar disso, com receio de vir a assistir à  sua desvalorização nominal ou real. Se bem  que João Ferreira do Amaral explique como poderia ser operada a transição, a mensagem não passa nem, desconfio, passará.

Num  dos últimos exames escritos que, em 1975 e no ISE, fez de mim um Licenciado em Economia e do qual, incidentalmente, dependia subir a minha média de curso de 15 para 16, o saudoso Eng.  Marques da Silva (um dos famosos irmãos engenheiros civis que um dia se tinham apresentado no então ISCEF, pedido plano de estudos, e feito brilhantemente e em tempo record a licenciatura em Economia, e, recordo aqui, um dos líderes do movimento dos assistentes do ISCEF anteriormente ao 25 de Abril) , colocou como tema a definição de um conjunto de medidas que permitissem reforçar o sector têxtil e aumentar as  exportação de produtos desse sector.  Fiquei exactamente   com 15 valores no exame, isto é, não subi a média de curso, porque entre o conjunto das medidas que alinhei omiti a desvalorização do escudo. Dizia Marques da Silva “O problema é que vocês foram formados na ideia do escudo forte…”.

No início do ano seguinte, alguns meses após a conclusão da licenciatura, fui trabalhar no Departamento Central de Planeamento, onde fiquei adstrito ao “Sectorial”, que tratava de políticas sectoriais e de investimentos, e tive oportunidade de conhecer ou reencontrar os craques do “Global” :  João Ferreira do Amaral, chefe do núcleo de Modelos (que desenvolveu, que me lembre, os modelos TEUV – “Técnicos Economistas Unidos Vencerão” conforme  o “pai” descodificava com um sorriso, e MODEP – “Modelo de desenvolvimento da economia portuguesa”) , o próprio Marques da Silva, José Emílio Amaral Gomes, Nuno Valério (que trocou uma certamente brilhante carreira como economista matemático por uma carreira académica notável no domínio da História Económica) e ainda outros.   Confesso no entanto que nunca fui capaz de sustentar que se tomassem medidas de índole global / horizontal para estimular um sector sem atender às repercussões noutros, nem me senti motivado para “exercer” como macro-economista. Sim, a nota de licenciatura foi justa…

Nos dez anos seguintes formei uma ideia muito elevada da competência de João Ferreira do Amaral enquanto economista e enquanto talvez o mais profundo conhecedor da economia portuguesa,  e da sua capacidade de relacionamento humano, inclusive quando  foi Director Geral e eu  Director de Serviços da área dos Investimentos do Plano, situação em que muitas vezes não  convergimos mas sempre nos compreendemos. Nessa altura doutorou-se, com uma perna às costas como se costuma dizer, no Instituto Superior de Economia com uma tese sobre matrizes de coeficientes variáveis. Saí do Departamento antes dele, nunca mais nos encontrámos. Fui seguindo as notícias da sua carreira académica, das suas funções como consultor da Presidência da República, e as suas tomadas de posição pública contra a adesão ao euro, numa altura em que toda a gente era a favor ou preferia não pensar no assunto.

O protagonismo associado à preparação, em anos recentes, dos pareceres do Conselho Económico e Social, e à publicação do seu livro recomendando a saída do Euro mostraram mais uma vez a sua firmeza de posições mas evidenciaram também o patriota. João Ferreira do Amaral não aceita a ligeireza com que muitos decisores políticos prescindiram do instrumento “taxa de câmbio” e da possibilidade de Portugal  ter uma política económica própria, e, se na entrevista que deu ao Expresso no ano passado e que veio   publicada em 4 de Maio, se reafirma favorável à adesão de Portugal à CEE mas a favor da saída do Euro, no livro explica que mesmo em relação à CEE teria tido dúvidas se lhe ocorresse que o quadro de exercício do poder no seio  da União viria a ter a actual configuração.

O não envolvimento de João Ferreira do Amaral na política partidária dá-lhe também uma autoridade acrescida.  Sem poder dar uma ideia precisa da formação das convicções de uma geração (enfim, uma meia-geração) anterior à minha, anoto que alguns  dos economistas que se formaram no então ISCEF no final da década de 1960, princípio da década de 1970, e sobretudo dos que nele permaneceram como assistentes, se ligaram orgânica ou ideologicamente quer ao PCP quer à Sedes e que muitos  outros se não definiram imediatamente ou apenas se definiram mais tarde quando Vítor Constâncio subiu a Secretário-Geral do Partido Socialista. Mesmo em 1974/75 uma parte destes manteve as pontes com o PCP, sem prejuízo de se definirem como próximos do Partido Socialista ou “do MDP” (no plano nacional o PS quis obrigar o MDP a passar de movimento a partido justamente porque grande número de personalidades se definiam ainda  como ligadas ao MDP).  Quando na citada  entrevista ao Expresso vejo João Ferreira do Amaral reafirmar que é um homem de esquerda, continuando a destoar da tradição familiar e dos irmãos que foram Ministros (Joaquim, pelo PSD, e Augusto, pelo PPM) e que se definiu sempre como “social democrata”, aprecio a ironia.

Já tive aqui a ocasião de estranhar que o último Governo PS tenha recusado o nome de João Ferreira do Amaral para a  estrutura que se iria pronunciar sobre parcerias público-privadas, ele cuja única colaboração política com partidos terá sido a que esporadicamente manteve com o Partido Socialista

https://ivogoncalves.wordpress.com/2010/12/19/investimentos-publicos-e-parcerias-publico-privadas-porque-a-recusa-do-nome-de-joao-ferreira-do-amaral/

Pelo seu lado Jerónimo de Sousa teve  a inteligência de assimilar e assumir a mensagem de João Ferreira do Amaral: sair do euro, mas com um Governo que saiba preparar a saída e negociá-la com a  União Europeia.

Quanto aos que não querem discutir o assunto com receio do que sucederá às suas poupanças, lembrem-se de que vão ficar à mesma sem elas: é a ideia do “Imposto Cadilhe”, o “Taxar Fortunas” do Bloco de Esquerda, o equivalente de Vital Moreira, regressado para fazer bem a Portugal cá dentro, e um estudo do Bundesbank. Só que quando Cadilhe fez as contas, a factura era de 10 %. Agora não deve ficar em menos de 50 %…

Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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3 respostas a Novamente, sobre João Ferreira do Amaral e o euro

  1. Muito bem. Aqui está uma excelente análise

  2. Rui Frade diz:

    Quando se consegue pensar sobre um assunto de uma forma independente sem colocar em primeiro lugar interesses pessoais ou de grupo, as conclusões a que se chega são mais ou menos óbvias. Outra coisa é elas serem aceites. Aí são mesmo os interesses que não deixam. Considero há muito tempo as opiniões do João Ferreira do Amaral sobre o Euro como as mais sérias e fundamentadas, mas há um aspeto que não entendo. Não seria preferível serem os países do norte (Alemanha e outros) a sair do Euro e os do sul (Portugal, Espanha, Itália) ficarem num Euro desvalorizado?
    Ivo
    Sabes a resposta a esta pergunta?

    • Nuno Eduardo da Silva Ivo Gonçalves diz:

      Rui Frade: os engenheiros, tipicamente, procuram a resposta única ou a “one best way”, eu sou um mero economista….
      Tenho lido uma ou outra notícia sobre essa proposta, mas o problema não é esses países que ficariam no euro do sul precisarem de corrigir uma sobrevalorização histórica – desde a criação do euro – ou acumulada nos últimos quinze anos. É cada um deles, insisto, cada um, necessitar de poder corrigir no momento em que quiser e na proporção em que quiser a sua taxa de câmbio basicamente por razões derivadas da sua competitividade nas relações com o resto do mundo, não incluindo UE. Ou seja tendo cada um dos países do sul da Europa economias com características próprias não parece liquido que devessem ter uma mesma moeda.
      Entretanto tenho visto escrito que, de harmonia com os Tratados a Alemanha deveria ter sido convidada a reduzir o seu excedente comercial e multada se não cumprisse. Mas como poderia fazê-lo ? Desencorajando o investimento ? Desencorajando a importação de mão de obra (os imigrantes) ? Redireccionando o investimento para outros países ? São tudo coisas que não se enquadram na tradição alemã e só uma outra via tem sido ensaiada . embora com grandes resistências: aumentar salários através da contratação colectiva e criar um salário mínimo, por via legislativa.
      Em todo o caso julgo que continuaria a existir um euro do norte ou uma zona marco, integrando os paises cuja interacção com a economia alemã os levasse a querer defender a moeda única.
      O problema aqui chama-se França. É Norte ? é Sul ? Se a França ficasse de fora da zona que abrangesse à Alemanha, veríamos as três maiores economias da UE – Alemanha, França, Itália, a reajustar paridades como forma de ganhar posição nas próprias relações intra comunitárias.
      De qualquer forma a abordagem baseada nas relações comerciais é simplificadora: a moeda não é apenas um instrumento de trocas é também uma reserva de valor. Esta parte fica para nova resposta.

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