O PCP e a convergência da esquerda no ano do centenário de Álvaro Cunhal

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Correu bem ao PCP a celebração do centenário de Álvaro Cunhal, passando uma mensagem política de firmeza, encerrando a comemoração com um encontro que reuniu em Lisboa 75 partidos comunistas e operários (noutro post introduzirei algumas qualificações em relação a este número) seguido de um comício de encerramento das comemorações que ficou um pouco aquém do histórico primeiro comício de 1974 e que as televisões julgo que ignoraram. Foi muito clara a sua postura de luta contra as políticas que vem identificando como “pacto de agressão”. Foram animadores os resultados autárquicos, com a recuperação de Câmaras importantes (no entanto muitas foram mantidas num quadro de elevada abstenção e algumas perdidas). Segue-se a comemoração dos 40 anos do 25 de Abril. Procurei dar alguma atenção à comemoração do centenário e aos eventos políticos em relação aos quais o PCP se posicionou e segui com especial atenção as publicações pessoais dos meus amigos comunistas no Facebook e os comentários de comunistas a entradas de amigos meus que se situam na esquerda socialista, especialmente Elísio Estanque e André Freire que dão a cara desde há anos pela convergência das forças de esquerda. Convergência essa que poderia revestir vários graus de intensidade e várias modalidades, e, na minha opinião, seria benéfica e mobilizadora para quem quer votar à esquerda ou simplesmente voltar a acreditar no sistema político. E seria de qualquer modo clarificadora para o conjunto dos actores do sistema político, incluindo os que ocupam neste momento a área do poder. A terminar o ano “devorei” a colectânea de estudos Álvaro Cunhal, Política, História e Estética publicada neste mesmo ano pela Tinta da China, com coordenação de José Neves. Estudos cuja leitura na maioria dos casos recomendo. Hoje em dia – comprovei-o pela leitura de vários dos textos da colectânea, mesmo os de autores que se distanciam da causa comunista – dá-se o devido valor à viragem estratégica do movimento comunista internacional no VII Congresso da Internacional Comunista em 1935 e ao papel de Jorge Dimitrov na procura da frente única da classe operária e na constituição de frentes populares antifascistas, percebe-se que essa orientação informou o III e IV Congressos do PCP, ainda nos anos 1940 e o VI Congresso, o Congresso do Rumo à Vitória, em 1965, e reconhece-se o contributo decisivo de Álvaro Cunhal (que esteve um mês depois no congresso da juventude) tanto na sua implementação nos anos 1940 como na sua reimplementação nos anos 1960 após a fuga de Peniche. É uma estratégia, como por vezes tem sido recordado em posts meus, que pressupõe que o PCP participe na direcção dos movimentos unitários e que, se o seu trabalho político for bem sucedido, neles tenha papel determinante. Mas exclui que o partido permaneça na expectativa quanto à evolução política ou se coloque a reboque de outras forças, e daí o combate ao “desvio de direita” que caracterizou o PCP na segunda metade da década de 1950, e no V Congresso. Ainda causa engulhos a quem se ocupa deste episódio como é que, depois da fuga de Peniche, Álvaro Cunhal conseguiu dar a volta à linha do Partido recuperando a quase totalidade dos quadros envolvidos no “desvio”. Mas justamente porque o PCP seguiu no passado uma estratégia unitária ou frentista tenho dificuldade em compreender alguns aspectos da sua actuação presente. Referirei três: 1) O PCP continua apegado a uma narrativa segundo a qual as conquistas da revolução e a Constituição começaram a ser destruídas em 1976 com o I Governo Constitucional de Mário Soares, “PS sozinho aliado de facto à direita”, e continuaram a sê-lo daí em diante. PS, PSD e CDS seriam os grandes responsáveis, aliás sindicatos como os da função pública não se coíbem de se definirem em oposição a estes três partidos. Ora o facto é que, do ponto de vista do cumprimento dos comandos constitucionais houve governos que deixaram obra positiva, como é o caso da criação do Serviço Nacional de Saúde e de outras iniciativas nos “sectores sociais”. As vozes que dão todos os políticos que passaram pelo poder como descuidados, vendidos ou privilegiados, tendem a a crescer, nesse momento de crise, e a confluirem com as do PCP, mas é o próprio regime democrático que põem em causa. E num caso ou outro gente com menos formação política poderá não saber fazer a diferença: há meses num debate no Facebook em que, a propósito da Câmara de Loures, vários comunistas atacavam as posições do PS desde Mário Soares vi um deles imputar a este a “venda das áfricas”. Brrr…Espero que a comemoração dos 40 anos da Revolução ilumine os espíritos. 2) O PCP parece ter alguma dificuldade em procurar ou examinar oportunidades de aliança. Discriminado por Mário Soares que jogou a carta americana para manter os comunistas fora da área do poder, soube, ainda com a presença de Álvaro Cunhal, reconhecer o valor da coligação proposta por Jorge Sampaio para o município de Lisboa. Não teve idêntica posição em relação às coligações propostas por António Costa, que seguia aqui o exemplo do seu mentor Jorge Sampaio (acabando Costa por ser empurrado para uma aliança pouco digna que lhe assegurou o controlo da área metropolitana) sendo provável que a sua fácil terceira vitória em Lisboa o alinhe no culto do PS sozinho a que, mais Estados Gerais, menos Novas Fronteiras, Seguro já se resignou. Percebo que o PCP tenha achado pouco sincera a proposta de coligações pré-eleitorais apresentada por Seguro, criticou-a com razão no aspecto de o seu âmbito já estar fechado, no entanto julgo que coligações para as Câmaras de Lisboa e Porto poderiam ter sido ganhadoras e criado um novo clima dentro da esquerda. O invocar que o PS se não tinha desvinculado do “pacto de agressão” faz pouco sentido no plano autárquico e escamoteia que Seguro se remeteu a uma postura de oposição ao Governo mais marcada que a da “abstenção violenta”, e mesmo que chegou a suscitar a fiscalização da constitucionalidade da medida mais emblemática do PEC IV – a aplicação da Contribuição Extraordinária da Solidariedade às pensões de aposentação e reforma. 3) Sendo a crítica política da Direcção do PCP a outras correntes de esquerda comedida sem deixar de ser firme, em todo o caso com diminuto recurso a ataques pessoais, as “bases”, sobretudo no Facebook tendem a ser mais radicais, um pouco na lógica do “quem não é por nós (e tem opinião própria) é contra nós”. Nunca me esqueci de um artigo de Ruben de Carvalho no Avante em que desvalorizava as tomadas de posição de Sottomayor Cardia e Eurico de Figueiredo contra a criação, sob o Bloco Central, de serviços de informações, por serem estes socialistas (trânsfugas do PCP e como tal tratados com especial carinho na imprensa daquele) claramente conotados com políticas de direita e resultar o relevo dado publicamente à sua demarcação daquela medida da circunstância de a comunicação social valorizar notícias insólitas, como a do “homem que mordeu o cão”. Tenho visto (no Facebook) ataques igualmente inflamados a escritos (e às pessoas) de Elísio Estanque e André Freire como se as posições destes socialistas de esquerda fossem mais perigosas que as da direita. E curiosamente a iniciativa de Mário Soares anunciar um “Congresso” para a Aula Magna desencadeou comentários da direita, que desvaloriza certas afirmações como imputáveis à idade, mas também de comunistas que veem em Soares o traidor de 1974/75 e o primeiro ministro que governou à direita e minimizam os seus actuais esforços. A ideia de que “os sociais democratas de esquerda são os nossos piores inimigos” era típica dos anos 1920 mas julgava-se que tinha sido enterrada em 1935 com o VII Congresso da Internacional. O Secretário-Geral que soube criar as condições políticas que tornaram possível a Revolução de Abril de 1974, e que no verão quente de 1975 soube reconhecer que o Movimento das Forças Armadas tinha sofrido uma fractura indesejável, sendo necessário negociar, ainda que a negociação tivesse de decorrer entre adversários, tinha certamente mais

sensibilidade política que a generalidade dos militantes, de então e actuais.

Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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