A intervenção cívica dos académicos

Há cerca de dois anos, estando já a caminho da conclusão de um trabalho académico de que pretendia libertar-me, escrevi num capítulo ao qual pretendia atribuir carácter metodológico:

Questão embaraçosa é a do tratamento dos artigos de opinião na comunicação social generalista, ou até na comunicação social especializada, que são subscritos por personalidades do mundo académico. Excluindo à partida a consideração de apontamentos ditados pelas pequenas polémicas políticas não se pode negar que estes artigos são construídos com o propósito de influenciar opiniões, e que não passam pelo crivo da peer review ou das normas de publicação de artigos científicos. Não obstante, um académico que esteja correntemente envolvido na política ou publique regularmente uma coluna de opinião, não pode dizer certamente dizer o que lhe vem à cabeça sem se expor a uma censura social tácita ou expressa da comunidade em que está integrado. Tudo visto e ponderado, optámos por listar estes artigos nas Fontes e não na Bibliografia, com uma diferente forma de referenciação nas citações.

Vou referir os casos de Sousa Franco, Vital Moreira e André Freire.

De Sousa Franco, que não reconhecia estatutos diferentes para os seus múltiplos escritos (numa sua biografia para o Ministério das Finanças referia “MAIS DE MIL TÍTULOS” !), fiz uma extensa citação (tão extensa que me havia de valer levar nas orelhas por parte de J.M. Leite Viegas) sobre o tema ‘gestão pública e administração gestionária’, a partir não de um dos seus numerosos livros, mas de uma palestra proferida ao jantar numa Conferência organizada em 1992 pelo CEGE e cujo prato forte foi a resistência do poder político à extinção da “Anotação”, confiada nos anos 1930 ao Tribunal de Contas, e que nenhuma serventia tinha.

Vital Moreira é certamente um caso polémico quer porque a sua influência na Administração Pública portuguesa se terá processado mais através de colaborações jurídicas, conhecidas ou não, do que das suas publicações académicas, quer porque parece a muitos configurar uma trajectória típica de migração para a direita, sem que esta o reconheça como um dos seus (continua a defender tenazmente o sistema público de educação). Isto não deveria desvalorizar a ponderação dos seus contributos, aliás é possível que a percepção de situações de captura da Administração Pública por interesses profissionais explique o progressivo assumir de uma postura de algum modo liberalizante.

Uma coisa todavia são as opiniões, outra coisa é a distorção de factos. Um exemplo será suficiente. Quando Vital Moreira no artigo “Os professores” (Público, 4 de Março de 2008) refere a FENPROF como instrumento sindical do PCP, vemos um ex-destacado militante deste Partido e um fundador do Sindicato dos Professores da Região Centro (sem cuja criação como “sindicato paralelo” a FENPROF não teria sido possível) renegar as suas obras, o que seria irrelevante do ponto de vista da verdade material. Só que pouco tempo antes haviam tido lugar processos eleitorais nos Sindicatos de Professores do Norte e da Grande Lisboa em que as direcções históricas se dividiram e listas sindicais englobando sectores ligados à Renovação Comunista, ao Partido Socialista e ao Bloco de Esquerda triunfaram sobre listas homogéneas do PCP ao qual pertenceu a iniciativa da ruptura.

Se o autor cansou os leitores e acabou queimado como opinion-maker por alguma razão foi. Utilizei muito material publicado por Vital Moreira na comunicação social, mas no processo acabou ele próprio por ser objecto de estudo.

Quanto a André Freire, ao qual tenho de agradecer a disponibilização de alguns dos seus trabalhos académicos, bateu-se muito na comunicação social sob o I Governo de José Sócrates com o risco de provocar o erguer de sobrancelhas por parte de muitos dos seus colegas. Tem mantido a produção científica e sabido conciliá-la com a intervenção cívica e com a sua coluna mensal no Público. De uma forma inteligente e com grande à vontade, tem chamado os resultados da investigação na sua área a sustentar ou ilustrar os seus textos de opinião.

Sigo com interesse a sua militância em benefício da convergência das esquerdas. Uma ou outra crítica que tenho arrriscado fazer aos seus textos tem subjacente uma ideia que explicito aqui: para falar sobre / interagir com as correntes políticas que se deseja ver mais próximas é útil conhecer a sua história, respeitar os seus códigos, criar uma certa empatia. E aqui o académico pode ajudar o militante.

Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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