Apontamentos políticos: do esquerdismo ao Bloco de Esquerda

Comprei “A Esquerda Radical em Portugal e na Europa”, de Luke March e André Freire (2012, Quid Novi), na Feira do Livro, um pouco auto-enganado. Julguei ter por objecto uma realidade homóloga da retratada por Richard Gombin há muitos, muitos anos (“Les Origines du Gauchisme”, 1971, Editions du Seuil) distinguindo os grupos e correntes de opinião aí estudados em “extremistas” (semelhantes aos PC’s, mas mais radicais) e “esquerdistas” (ex.internacionais situacionistas, conselhistas), mas esses estão evidentemente mortos e enterrados, e Luke March trabalha apenas sobre organizações com algum peso eleitoral incluindo partidos comunistas “conservadores” ou “reformadores” e em Portugal, sobre o PCP e o BE. Análise importante, até por, mesmo em caso de relativo sucesso, a comunicação social raramente os referir nas notícias sobre a Europa.

Em Portugal Miguel Cardima (“Margem de certa maneira: o maoísmo em Portugal 1964-1974”, 2011, Tinta da China) e Pacheco Pereira (“As armas de papel”, 2013, Círculo de Leitores) conseguiram mapear no essencial essa galáxia de organizações que foram a bête noire de Álvaro Cunhal antes do 25 de Abril (e que no princípio surgiram com base em descontentes do PCP formados / traumatizados nas lutas de 1962 e 1963), quase todas com discursos grandiloquentes e vanguardistas, propondo o caminho directo para a Revolução Socialista sem etapa “democrático nacional” . Textos que se lêem com interesse e com frequentes sorrisos.

A interpretação sociológica não estará ainda feita: apenas um fenómeno de juventude, cujos protagonistas quando se encontrassem na posse dos meios de produção iriam, como eles próprios sabiam, ultrapassar (como curiosamente se refere tanto num dos textos do MRPP citados por Cardina como no “Até amanhã, Camaradas !”) ? Bom, recordo-me de Eduardo Graça dizendo a um círculo de jovens do primeiro ano no jardim do Quelhas que não se assustassem com o que se discutia no ISCEF porque o capitalismo ia precisar no futuro de quadros que entendessem de marxismo…Mas ao lado destes mestres do cinismo, algumas organizações, referidas por Cardina, propõem aos neófitos que vão para terras desconhecidas empregar-se nas fábricas e viver a vida dos operários, o que só me tinha chegado na altura em relação a casos de activistas católicos.

O “esquerdismo” recompõe-se e redefine palavras de ordem para o pós 25 de Abril, segundo Cunhal causando mais danos (Catarina Pires, “Cinco Conversas com Álvaro Cunhal”, 1999, Campo das Letras). André Freire, no livro que cito (p. 128), desvaloriza a importância eleitoral deste campo político e arruma as suas veleidades programáticas com uma afirmação “os partidos de esquerda radical [ PCP não incluído] defendiam modelos socialistas / comunistas ao estilo do terceiro mundo”, que necessitaria de ser esmiuçada, fundamentada e debatida. Dito de outra forma: o que é que Freire quer exactamente dizer com isto ?

Se Freire quisesse cavar um pouco mais fundo poderia atentar, mesmo no plano eleitoral em que: a) se as eleições de 1975 tivessem sido em círculo nacional e por representação proporcional COMO SERIA DEFENSÁVEL TRATANDO-SE DE UMA CONSTITUINTE várias destas organizações teriam ficado representadas : com 3 deputados o Movimento da Esquerda Socialista (de cor, 80 mil votos), com 2 deputados a UDP (de cor, 45 mil votos) que ficou nesta e nas seguintes apenas com um, e não sei se outras; b) no pós 25 de Abril e sobretudo no verão quente de 1975 , este campo se divide em três áreas : 1) à direita o MRPP e PCP (m-l) / AOC, com contactos com o PS e o PPD ; 2) ao centro a UDP , partido – frente de um PCP (r) para onde iria convergir a maioria das organizações maoístas, e, neste contexto, muito focada no “Nem, nem” , por isso a qualifico de centrista; 3) à esquerda, as organizações que subscrevem com o PCP e o MDP a criação do Secretariado provisório para a criação de uma “Frente de Unidade Popular”. Todos arranjaram algumas ligações militares entre os oficiais e quase todas quiseram começar a trabalhar entre os soldados, com um grande contributo para o processo que levou ao 25 de Novembro.

Estas organizações vão sendo progressivamente desactivadas ou desertadas pelos seus militantes. Nas que subsistem, com base em militantes mais consequentes, há esboços de uma dinâmica unitária: os resultados relativamente expressivos do PSR inspiram em 1983 uma coligação eleitoral UDP/PSR que nem sequer consegue conservar o deputado da UDP, esta recupera-o mais tarde, como regista Freire, como independente em listas do PCP (convergência que, talvez infelizmente para a esquerda, não foi aprofundada nem teve continuidade). Mais tarde, a Plataforma de Esquerda sai do PCP , a Esquerda da Plataforma entende-se com os “velhinhos” do MDP para, em 1994, converter este em Política XXI, que só recentemente cancelou o registo como partido.

André Freire pode apresentar o BE inicial de 1999 como “coligação eleitoral” material, se considerar que criar um quarto Partido para fazer concorrer gente dos outros três, mais novos quadros, é uma coligação eleitoral, MAS deve tomar nota de que às europeias e às legislativas de 1999 o BE, do ponto de vista formal, concorreu com base no seu registo próprio, e não como “coligação de dois partidos e um movimento”.

http://www.tribunalconstitucional.pt/tc/partidos2402.html

E pode certamente conceder ao BE um certificado de não obediência ao centralismo democrático, que aliás seria difícil de afirmar ter existido nos grupúsculos de pequena dimensão dos anos 1970. Sobre a actuação recente do Bloco de Esquerda, acompanho muitas das suas análises.

Já me ocorreu comparar o processo de formação e estabilização do BE com o do Partido Socialista Unificado (PSU) francês dos anos 1960 (retratado em “Le PSU et le avenir socialiste de la France”, 1969, Editions du Seuil). O caso do BE tem algumas diferenças sensíveis: por um lado tem gerido melhor, apesar de tudo, as suas dissidências internas, por outro nunca teve uma componente orgânica que fosse uma dissidência do PS, enquanto que Michel Rocard trouxe um “Partido Socialista Autónomo” quando saiu do antigo partido socialista (S.F.I.O.), liderou o PSU, e se juntou mais tarde ao novo Partido Socialista.

Se quisermos olhar para o BE como uma empresa, este talvez tenha falhado o crescimento por aquisição ou fusão, se é que o desejou no quadro do diálogo com Manuel Alegre e os seus apoiantes, que correspondiam à esquerda socialista que o BE não tinha incluída nas suas componentes iniciais. Em termos de crescimento “orgânico” a perda de metade dos eleitores e dos deputados indica uma inversão da dinâmica. Veremos qual o seu futuro.

Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Esta entrada foi publicada em Cidadania, História. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s