Apontamentos políticos: o centenário de Álvaro Cunhal

Depois de ler o excelente trabalho de Fernando Rosas “Salazar e o poder. A Arte de saber durar” (2013, Tinta da China) que pretende explicar a durabilidade do regime salazarista “48 anos de ponta a ponta (1926-1974)”, apenas cabe perguntar como é que veio a cair.e porquê naquela ocasião. A resposta passa pelo factor “Álvaro Cunhal”.

Julgo que a qualificação “leninista-dimitroviano” que José Pacheco Pereira aplica ao modelo de imprensa clandestina do PCP (As Armas de Papel, 2013, Círculo de Leitores) também serve para o próprio partido. Em 1935 no VII Congresso da Internacional Comunista, Dimitrov em relação aos sindicatos, aponta a necessidade de trabalhar onde estão as massas, o que pode significar ( e em Portugal significava), sindicatos criados pelo regime, e, em relação ao quadro político, a abertura à constituição de frentes populares, as quais, para além das experiências de França e de Espanha, se replicam imediatamente por todo o mundo, incluindo no caso português uma efémera Frente Popular Portuguesa e reunindo no caso de Cuba o primeiro partido comunista cubano e os partidários de…Fulgêncio Baptista. Uns anos depois, mais seriamente, esta orientação do VII Congresso da IC, entretanto dissolvida, facilitou a formação de coligações políticas de resistência durante a II Guerra Mundial e, após ela, a criação de Governos Provisórios, a convocação de Assembleias Constituintes, e até a realização de nacionalizações. De certo modo foi este o figurino seguido 30 anos depois em Portugal.

Ora Álvaro Cunhal, embora sem suceder ao Secretário-Geral Bento Gonçalves, que morreu no Tarrafal em 1942:

– foi um dos obreiros da reorganização de 1940/41, que fez do PCP, como diz Fernando Rosas, um partido diferente;

– contribuiu no III (1943) e IV (1946) Congressos do PCP para afirmar uma linha inteiramente consentânea com a orientação que referi para o trabalho nos sindicatos e com a unidade antifascista, e para que esta fosse reafirmada no VI Congresso (1965), o Congresso do Programa da Revolução Democrática e Nacional (que se poderia vir ou não a converter ou não em Revolução Socialista, e onde, “Nacional” tem a ver com o objectivo de “libertar Portugal do Imperialismo”) e do Rumo à Vitória;

– foi um defensor intransigente do princípio de que o PCP não participa em movimentos em cuja Direcção não participe, distanciando-se como Rosas bem percebeu, da memória do reviralhismo e de aventuras como a do quartel de Beja;

– passou a década de 1950 encarcerado e “perdeu” os movimentados anos do final da década (Campanha de Delgado, Revolta da Se), sendo recuperado, ele e outros quadros, da cadeia de Peniche numa evasão apoiada pela Direcção do partido, que sabia ir ser criticada por “desvio de direita” (por ter ilusões sobre a possibilidade de ruptura pacífica, por admitir uma evolução que excluísse a co-liderança do PCP) mas que o elegeu Secretário-Geral e que, para não correr o risco de ser preso como em 1949, decidiu a sua saída para o exterior.

Caros amigos politólogos, Álvaro Cunhal “líder do PCP (1961-1992)” não é coisa assim tão pacífica.

De resto é conhecido o percurso até ao 25 de Abril de 1974: firmeza aquando da morte política de Salazar, aproveitamento muito hábil das oportunidades das eleições de 1969 e de 1973, eleições sindicais, constituição da intersindical, recuperação parcial de posições no movimento estudantil, entendimento estreito com os “católicos unitários”, acordo político com o recém criado partido socialista em 1973, greves na cintura industrial de lisboa em princípios de 1974, denúncia consequente da política colonial, e muito, muito, combate ao esquerdismo.

Dir-se-á embora que não houve um “levantamento nacional” que, segundo os conceitos clássicos, atraísse o apoio de uma parte das forças armadas e neutralizasse a outra parte, mas até desse ponto de vista se pode dizer que as condições de apoio criadas na sociedade a um movimento democrático vindo das forças armadas eram as mais favoráveis possíveis e que a linha do PCP o dispunha a ser receptivo, sem se deixar marginalizar.

Obviamente, tudo isto se fez no quadro de uma evolução complexa, e são muito interessantes as duas informações ao Comité Central “Sobre a situação política e as tarefas do Partido” do princípio dos anos 1970, publicadas no IV Volume das Obras Escolhidas (1967-1974, Edições Avante !) que saiu recentemente.

Sobre Cunhal no pós 25 de Abril tentarei escrever noutra altura.

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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