Guiné – Bissau : a propósito de duas obras

O poder de facto nas mãos dos militares, um ex-Chefe do Estado Maior da Armada capturado no alto mar por envolvimento no tráfico de droga, um Chefe do Estado Maior da Força Aérea apontado como cúmplice, o Chefe do Estado Geral das Forças Armadas  acusado por um procurador americano, não se excluindo uma nova operação de captura tipo Noriega …

Como chegou a Guiné – Bissau até aqui ? Quem adivinharia há quarenta anos que o futuro seria este ? Algo a predestinava para este efeito ?

Tive a possibilidade de ler na mesma semana duas obras  publicadas  em anos recentes sobre a guerra que conduziu à independência:

– “A Guerra da Guiné 1963/1974” de Fernando Policarpo, nascido em 1951 no concelho de Caldas da Rainha, que participou activamente na guerra como alferes das Forças Armadas Portuguesas, chegando a ser ferido em combate. Licenciado em História e Mestre em Didáctica da História pela FLUL, Professor do Colégio Militar , à data da publicação do livro  doutorando em História Contemporânea na mesma FLUL como bolseiro do Ministério da Defesa, QUIDNOVI (em colecção organizada pela Academia Portuguesa de História) , 2010, 127 p.

– “Amílcar Cabral (192-1973). Vida e morte de um revolucionário africano” , de Julião Soares de Sousa, nascido em Bula, Licenciado , Mestre e Doutor pela FLUC. Investigador no Centro de Estudos Interdisciplinares do século XX na Universidade de Coimbra.  O livro – Nova Vega, 2º edição, 2012, corresponde à tese defendida em 2008. Prémio Fundação Calouste Gulbenkian História Moderna e Contemporânea de Portugal da Academia Portuguesa de História” , 570 p  (no  meu exemplar faltam-me as páginas 33 a 64 e em “compensação” repetem-se  as páginas 65 a 96 EM TEMPO; CONSEGUI FAZER A TROCA NA FEIRA DO LIVRO).

São evidentemente, dois trabalhos de fôlego muito diferente, centrando-se o primeiro nos aspectos políticos e militares da guerra e tratando o segundo quer de aspectos mais estritamente  biográficos quer do processo de luta pela independência, com bastantes referências às ideias políticas e sociais de Amílcar Cabral.

Lidos ambos os textos, e conferidas as bibliografias, verifico que  NENHUM DOS  AUTORES TEVE   CONHECIMENTO DO TRABALHO DO OUTRO mas que há um interessante  paralelismo nas abordagens:

– ambos os autores sustentam que historicamente teria sido preferível a negociação – Fernando Policarpo adopta a postura, que atribui a António de Spínola, de considerar que a guerra deveria ser conduzida pelas Forças Armadas com o objectivo de dar tempo ao Governo para encontrar uma solução política, não aceitando uma orientação tipo Goa de se fazerem derrotar no terreno  (para não se ter de abrir uma negociação que criaria um  precedente) e arrasa os responsáveis pelo  massacre dos estivadores em Bissau em 1956, que, denuncia, ocorreu depois de a CUF ter concedido aumentos salariais que o administrador local achou por bem não comunicar para não perder a face perante os grevistas;

– ambos fazem no essencial o mesmo tipo de referências às derrotas quase sistemáticas sofridas pelas forças portuguesas até  1968 (nomeação de Spínola) dando inclusive Policarpo maior relevo do que Sousa à defesa da Ilha de Como e das vias hidrográficas do Sul pelo PAIGC  e referindo o pormenor humilhante de durante este período o PAIGC operar com quatro embarcações da Armada Portuguesa de que se apoderou no início (uma veio a ser afundada mais tarde e as restantes destruídas em 1970 pela força que Alpoim Calvão conduziu a Conakry na operação Mar Verde);

– ambos consideram fulcral a estratégia do controlo de populações de Spínola, relativizando Policarpo o seu sucesso (situações de controlo meramente aparente e duplo controlo das populações, fuga de certas unidades ao cumprimento de missões que pudessem levar a confrontos) e anotando Sousa as gravíssimas dificuldades que criou no PAIGC, tendendo a população a deixar as zonas libertadas (de que admite, a propaganda do Partido sobrevalorizaria a extensão) quer para as zonas controladas pelos portugueses quer para o estrangeiro, obrigando a medidas de recrutamento compulsivo e outras manifestações de autoridade que criaram sérias tensões;

– ambos se referem (Sousa essencialmente a propósito de acontecimentos posteriores) à incursão em Conakry em 1970 que permitindo alguns sucessos  (libertação de 26 prisioneiros portugueses, destruição das embarcações pertencentes originariamente à Armada) não abalou Sekou Touré e não foi bem sucedida em ocultar o envolvimento português  (foram previamente recrutados e treinados oposicionistas da Guiné-Conakry, mas a operação foi conduzida pelos portugueses);

– ambos valorizam a  capacidade de diálogo de Amílcar Cabral, com quem Spínola e Senghor queriam fosse estabelecido um processo negocial.

Policarpo coloca aqui uma reserva, compreensível em quem esteve no terreno, referindo os contactos regulares entre delegações das Forças Armadas e do PAIGC e a sua cessação com o assassínio de três majores e do oficial que os acompanhava, o que admite poder ter resultado de  uma  reacção de Amilcar Cabral a contactos não autorizados conduzidos por comandantes locais do PAIGC. Sousa revela que terá sido exactamente o contrário: um dos comandantes locais do PAIGC, aliás recentemente  condecorado pelo seu envolvimento no ataque ao Aeroporto de Bissau, resolveu por fim aos contactos, abatendo  os majores, e recebeu ordem de prisão emanada de Amílcar Cabral (o nome do comandante consta da tese mas como dissemos, sendo esta de 2008 a sua edição terá sido posterior ao trabalho de Policarpo).

Quanto ao assassínio, em 1973, de Amílcar Cabral, no decorrer de uma tentativa de golpe efectuada por descontentes (alguns já envolvidos em tentativas anteriores ou destituídos dos seus cargos por outras razões e perdoados ou amnistiados ), Policarpo inclina-se, é certo que sem realização de investigação,  para a explicação que haveria  de ser formulada por José Pedro Castanheira – envolvimento de Sekou Touré – até por na ocasião terem sido escutadas “dicas” de Senghor nesse sentido. Já  Sousa admite um leque mais largo de hipóteses, sem excluir essa.

Repare-se que é possível que algumas das explicações se conjuguem  – de entre os elementos que passaram pelas mãos da PIDE em Bissau alguns podem ter sido “virados”, a existência de descontentes de longa data era um facto, Sekou Touré ou os seus assessores   poderiam simplesmente ter dado um sinal de que não interviriam em caso de derrube do triunvirato de cabo-verdianos que integrava a comissão permanente. Sousa admite que houvesse simplesmente a intenção de capturar Amílcar  Cabral e outros dirigentes e conduzi-los a zonas libertadas e que Sekou Touré, com apoio de  meios  navais soviéticos,  tenha decidido deter os cabecilhas do golpe e interceptar a embarcação que levada presos Aristides Pereira e outros, essencialmente  por o que se passou constituir um desafio à sua autoridade.

Justificar-se-á que um dia Portugal, a Guiné – Bissau e a Guiné – Concraky nomeiem uma Comissão Tripartida de apuramento da verdade que recorra aos arquivos oficiais até agora fechados e aos testemunhos dos militantes que ainda estão vivos.

Julião Soares de Sousa analisa detidamente as razões que poderão ter levado Amilcar Cabral a defender a existência de um partido único pós – independência, que não resultam exactamente  das influências marxistas no seu pensamento. Se Cabo Verde parece ter conseguido  estabilizar uma democracia bi-partidária, na Guiné – Bissau abriu-se um ciclo de sangue que  parece não estar ainda encerrado.

A defesa do partido único como forma de manter a coesão e organizar o esforço colectivo pode encontrar um paralelo na tentativa, em  Angola, de se  prevenir a corrência de novas  situações como a que levou ao confronto de Maio de 1977 (com primeiro, o assassínio de Saidi Mingas e companheiros, e depois,  o massacre dos partidários de Nito Alves e José Van Dunen)  através da transformação, depois revertida, do MPLA em partido marxista – leninista.

———

Graças ao movimento militar de 25 de Abril, que comemoramos dentro de dias, não vim. felizmente, a ser mobilizado para nenhum dos teatros de operações e fui incorporado na reserva territorial sem nenhum treino militar.   Respeito, contudo, e muito, a sensibilidade de quem lá esteve.

Muitos anos depois, fui fazer, ao serviço do INA e da Associação Industrial Portuguesa, dois cursos de formação, um em Bissau , outro, quinze dias depois, na Cidade da Praia, este para formandos de todos os PALOPs, onde tive a honra de ter como formando José Maria Neves, actual primeiro ministro, então parlamentar da oposição e secretário da Mesa.

Nos primeiros dias deste segundo curso,  dá-se o movimento militar de Ansumane Mané e Veríssimo Seabra contra Nino Vieira que acompanhei de perto em diálogo com os meus formandos cabo-verdianos e com o Director Nacional da Administração Pública da Guiné – Bissau, que também participava, como formando, na acção. Deu para falar um pouco.

Desde aí estes três combatentes,  que conheceram, todos, os mais altos cargos das suas Forças Armadas, cairam sucessivamente às mãos de militares.  Para Ansumane Mané,  a Rocha Tarpeia ficou  mesmo (em termos temporais pelo menos) ao lado do Capitólio.

Dá que pensar.

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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