O PEC IV e os idiotas úteis

Escreve Ferreira Fernandes na sua coluna do DN de 7 de Julho de 2012:

Em 2011 foi votado no Parlamento um coiso (chamava-se PEC IV) com voto a favor do PS e contra do PSD, CDS, BE e PCP. Por causa desses votos, aconteceu o que era sabido por todos antes de votarem: caiu o Governo, houve eleições, ganhou o PSD e fez-se um Governo PSD/CDS. O meu ponto é: ao PSD e ao CDS aconteceu o que lhes interessava quando votaram; já o BE e o PCP tiveram o que não queriam, apesar de saber que teriam o que tiveram se votassem como votaram. Os do PSD e CDS fizeram o que queriam. Os do BE e do PCP foram idiotas úteis.”   

Ferreira Fernandes parte daqui para considerar idiotas úteis os deputados do PS e do BE que requereram a fiscalização da constitucionalidade da suspensão dos subsídios de férias e de Natal. 

Não o acompanho nesse caminho, mas quanto ao PEC IV não deixei de achar efectivamente estranho que, sem haver necessidade de votação sobre o PEC IV (e Sócrates, quando percebeu não ter maioria, pretendeu evitá-la), o PCP e o BE se tenham envolvido num jogo de aprovações cruzadas com o PSD e o CDS que a não votação dos considerandos dos quatro textos permitiu. Para dois partidos que conseguem ser tão tacticistas quando está em causa a conjugação de esforços entre ambos, custa perceber porque razão não optaram pela radicalização do desgaste, deixando chumbar as quatro propostas sem que o Governo visse o PEC IV votado favoravelmente.    

Seria melhor no entanto que o PS não procurasse alimentar o mito da impossibilidade de governar à esquerda com base no chumbo do PEC IV um pouco como no caso da lenda falsa de que o I Governo Constitucional, de Mário Soares caiu porque o PCP votou contra, em vez de se abster (a abstenção teria os mesmos efeitos). Se tinha de fazer acordos, seria sempre com o PSD com quem fez um acordo politicamente ruinoso para aprovar o OE para 2011. E, como se percebeu, o PEC IV não era sustentável.  

É claro que subsiste a questão de saber porque não é aparentemente possível uma coligação, governamental ou com incidência governamental, de partidos de esquerda quando estes têm em conjunto maioria do parlamento.  Mas isso são outros contos.

 

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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