Greve geral: as verdades a que vamos tendo direito

Bastava  olhar à volta no dia 24 e consultar as 85 páginas de dados que a CGTP disponibilizou, honestamente, no seu site (no site da UGT nada encontrei, dando ideia que em matéria de greves gerais  a UGT só serve para colocar  a   assinatura e posar para as fotografias) para perceber que, de modo geral, a greve não teve impacto nas empresas privadas, e que  nos locais onde a CGTP realizara reuniões e fizera aprovar moções  a greve ficou pelos 50 % ou abaixo.

É claro que a sensibilização vale para o futuro, e os dirigentes patronais têm a percepção de que é melhor que a concertação social resulte. Duvido é que o Ministério da Economia e Emprego esteja à altura.

No sector público empresarial, como merecia a política de alargamento cego das medidas relativas à  Administração Pública, prosseguindo a política de Teixeira dos Santos de incluir no OE medidas directas em relação a entidades com independência orçamental, tudo esteve muito quente.

Nos dados da greve da Administração Pública, transcrevo a análise feita no site do Sindicato Nacional do Ensino Superior: 

A Direcção-Geral do Emprego e da Administração Pública (DGAEP) resolveu divulgar “adesões” às greves de ontem através de mapas pré-preenchidos quanto ao número de efectivos e que, quanto às adesões, permaneciam a zero até ser recebida informação das entidades públicas. Depois calculava-se uma taxa e… sai uma adesão de 3,6% às 11:30 e de 10,48% às 17:30!

Basta ver os dados relativos ao Ministério da Educação e Ciência para perceber como esta metodologia da DGAEP contribuiu para se pôr a ridículo e, incidentalmente, arrastar consigo o Governo.

http://www.dgaep.gov.pt/upload/Greves/24Nov2011/greve_24Nov2011.htm

Em rigor,

  1. Deveria ser criada uma coluna “Efectivos relevantes para efeito do cômputo de adesões”, excluindo os efectivos sem direito à greve (militares, forças de segurança), os não abrangidos pelos pré-avisos (no caso da greve de ontem, por exemplo os magistrados), os que se não encontram ao serviço (por exemplo, em gozo de licença sem vencimento ou de férias, ou tratando-se de docentes e se o pré-aviso se restringisse a greves às aulas, os que não tivessem  aulas nesse dia, e os ausentes por outros motivos, como doença ou falta de transportes).
  2. Em lugar da coluna “Adesão à greve” deveriam ser criadas as colunas “Efectivos abrangidos por serviços mínimos” e “Efectivos em greve”.
  3. As linhas relativas a entidades que (ainda) não tenham enviado informação deveriam ser omitidas e os respectivos efectivos excluídos dos totais considerados para efeitos do cálculo das taxas. Para se aferir da representatividade da informação divulgada publicar-se-ia a informação relativa ao número total de efectivos em relação aos quais não se dispõe de informação.

Por alguma coisa disse Miguel Relvas que não queria entrar em guerras de números: não os tinha

Fora dos  Ministérios da Saúde e da Educação, o que revelam os dados, detalhados organismo a organismo ?

Uma adesão relativamente baixa  embora, se corrigidos os efectivos para os “efectivos relevantes para efeito do cômputo de adesões”, numa taxa superior à indicada. Atenção que também aqui há organismos a zero porque a informação não foi enviada. 

O que revelam os dados do Ministério da Saúde ?

Gostaria que alguém os validasse.

Entretanto, se houve serviços mínimos, uma parte do pessoal a eles afectos deve ser considerado em adesão.

O que revelam os dados do Ministério da Educação – Escolas Básicas e Secundárias ?

A acreditar na DGAEP, mesmo na versão “final” hoje divulgada (com um rodapé que indica que os dados não estão completos), ninguém fez greve.

A FENPROF refere escolas encerradas, em número que me parece menor do que em ocasiões anteriores. Mas isto significa adesão de quem ?

O que revelam os dados do Ministério da Educação e Ciência – Ensino Superior ?

Os dados da DGAEP reflectem em grande parte as intenções de adesão que acarneiradamente, para entregar os dados à DGAEP, os serviços das instituições de ensino superior recolheram na véspera e antevéspera. Muitos docentes não entregaram qualquer informação.

O número de docentes que fez greve terá sido  substancialmente mais elevado nas Universidades, potenciado pelos abaixo-assinados que mobilizaram alguns opinion makers. Mas o facto é que a interrupção, em termos amplos, do funcionamento normal, para a qual apelou aliás o SNESup, não se deve apenas a uma maior adesão à greve. 

Se lermos uma frase que está no site do SNESup  “Em muitas instituições do subsistema universitário e em algumas escolas do subsistema politécnico público esse objectivo foi atingido” concluímos também que “Numa parte do subsistema universitário e na quase totalidade do subsistema politécnico esse objectivo não foi atingido.”

Curiosamente, reflectindo possivelmente diferentes canais de ligação, as “estrelas” da greve não coincidem totalmente  na FENPROF e no SNESup:

Na FENPROF – Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, das Faculdades de Ciências, Letras, Arquitectura, Ciências da Educação e Psicologia da Universidade do Porto, do Instituto Superior Técnico, da Universidade do Algarve, das Faculdades de Ciências e Farmácia da Universidade de Lisboa, do pólo de Ciências Sociais e Humanas da Beira Interior, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, do ISCSP da Universidade da Madeira, do pólo de Ciências e Tecnologia da Universidade de Évora, da Universidade de Aveiro e da Universidade do Minho.

No SNESup – com paralisação quase total, as Faculdades de Ciências, Direito, Letras e Psicologia da Universidade de Lisboa, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova, o ISCTE-IUL, a Universidade de Coimbra e a Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa, e com paralisação significativa, as Universidades do Algarve, dos Açores e do Porto.

Com base nestes dados tão frágeis,  Manuel Carvalho da Silva valorizou ainda  mais do que no ano passado a GREVE NO ENSINO SUPERIOR

(ninguém fala do ensino superior particular nem da U. Lusófona de que o futuro ex-secretário-geral da CGTP já é docente)

O problema é que muitas vezes até  os grandes generais perdem batalhas por informações deficientes sobre o número e a qualidade das suas tropas.

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Sobre ivogoncalves

65 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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