A nova Greve Geral e o debate sobre as estratégias sindicais ineficazes

Alan Stoleroff, um dos poucos académicos que tem realizado e dinamizado estudos sobre a realidade sindical portuguesa da actualidade, dizia há semanas, quando ainda estava apenas em causa uma “semana de luta” prometida para o mês de Outubro e não a nova Greve Geral de Novembro: 

Temos sérias preocupações no que respeita à estratégia da CGTP. O lançamento praticamente ritual do apelo à ‘semana de luta’ em Outubro é evidentemente pouco e simultaneamente demais. Em primeiro lugar, os sindicatos, ao nível das empresas, estão muito enfraquecidos, e a convocação de greves pela CGTP arrisca expor a sua fraqueza e divisão, isolando os militantes e activistas da massa de trabalhadores compreensivelmente amedrontados pela insegurança e a prepotência patronal. A demonstração de fraqueza sindical é precisamente aquilo que o patronato e o governo precisam para continuar a sua ofensiva com confiança. Não me parece muito previdente. É a repetição ritual da bravura maximalista que acompanhou a convocação da última greve geral. Além de mais, são acções que não têm possibilidade de produzir ganhos visíveis para os trabalhadores, de maneira a ensinar-lhes que lutar vale a pena. É uma estratégia arriscada e imprudente de desmobilização e de um desgaste de recursos organizacionais irrecuperáveis.

Pode-se tentar refutar a minha preocupação referindo-se os inevitáveis êxitos de greves nos sectores de transportes e da participação grevista da função pública. Mas temos que ter uma análise fria dos resultados das greves anteriores, para prever a recepção dos apelos de hoje, e é um facto que greves nos transportes e na função pública são mais uma chatice para a população trabalhadora não-grevista de que para o governo e o patronato! E não se deve sobrestimar a solidariedade dos não-grevistas. O transtorno da vida quotidiana traz ressentimento e os portugueses não são cegos; percepcionam bem a amplitude das greves e calculam os custos e benefícios individuais e familiares do risco associado à falta no emprego.

Mas ainda: qual será o efeito, para a mobilização, do apaziguamento dos professores após o acordo sobre a avaliação e a divisão da plataforma sindical?”

Concordo em quase tudo com Alan Stoleroff, referindo apenas que quanto aos professores a desmobilização terá pouco a ver com a divisão da plataforma sindical.

Do mesmo modo, não me parece que os  desenvolvimentos que levaram à nova greve geral alterem a situação. A função pública e os transportes são atacados agora com maior abrangência e de forma mais radical, a pressão sobre os outros sectores, reforçada, continua a ser  difusa, como o é aquela que atinge o conjunto dos consumidores e  dos contribuintes.

 A indignação pode ser muito maior, mas o desconto do dia de greve geral pesará proporcionalmente muito mais e a percepção de que se não se conseguirão ganhos visíveis é muito mais forte, justamente pela experiência colhida no 24 de Novembro anterior.

Onde me parece necessário discutir melhor a visão de Alan Stoleroff  é quanto à possibilidade de aproveitar a mobilização popular para obter resultados a nível de concertação:  

Portanto, deveremos estar agora a advogar a adopção de uma estratégia política, ou seja, política no sentido amplo de mobilização popular (o que a orientação actual da CGTP visa de forma camuflada), uma estratégia que procure unir a classe trabalhadora em sentido alargado e os movimentos sociais e profissionais, que mobilize e que dirija a pressão popular para torcer os braços do governo e do patronato na ‘concertação social’, que leve a pressão para o parlamento, procurando obter ganhos com base na força dessa pressão e com a sagacidade de transformar eventuais ‘concessões’ em matérias racionalmente justificadas em vitórias para a classe trabalhadora, o estado social e o país.

(Para mim, a decisão estratégica mais consequente da CGTP desde 1984 foi a sua integração no Conselho Permanente da Concertação Social. Mas, enquanto a UGT sempre soube utilizar a sua participação nesse órgão para fazer as trocas necessárias para manter a sua posição, a CGTP não soube – ou não quis – utilizar eficazmente a vantagem significativa da sua capacidade mobilizadora para avançar a sua perspectiva na concertação.)

Infelizmente, as forças predominantes na CGTP (desde o PCP até ao BE) estão alérgicas a esse tipo de pensamento (“Deus nos livre de entrar em jogos de negociação-conflito: as massas podem aprender lições falsas e nós poderemos ficar contaminados pelo compromissos!”), e infelizmente, a UGT está alérgica à mobilização popular! É preciso um lobby junto das lideranças sindicais de todo o movimento sindical, porque nesta divisão inútil, com base em diferenças ideológicas e políticas irrelevantes, afundaremos todos.”

A  greve geral de 24 de Novembro de 2010 teve o envolvimento das duas confederações sindicais, o que não me parece explícito na análise de Stoleroff. Tanto assim que,  quando a CGTP e a UGT  se desentenderam, João Proença reivindicou, sem ser desmentido por Carvalho da Silva, a iniciativa da greve geral e a autoria material do essencial do pré-aviso. A  CGTP, que teve indiscutivelmente o maior papel na mobilização, esteve a travailler pour le roi de Prusse. Mas  o facto é que a UGT, tendo alcançado algumas correcções subtis de estratégia  no sector público, não  conseguiu fazer discutir as propostas bem estruturadas com que partira para a concertação social e acabou por se resignar ao duvidoso papel de comparsa em mais algumas malfeitorias laborais, uma vez que não parece ter logrado efectuar quaisquer “trocas”.

Para que a concertação social tivesse alguma relevância as partes, incluindo o Governo,  teriam de ter disponibilidade de trazer para aí as suas intenções em matéria de política de rendimentos e preços, incluindo fiscalidade, em vez de factos consumados,  e de incluir expressamente as matérias relativas a remunerações do sector  público no âmbito da concertação social.

É evidente que isto não tem sido feito, e que, para se alcançarem alguns resultados e se criar um clima de confiança, será imprescindível como referi em post anterior, clarificar ”se eventuais melhorias da situação financeira serão repercutidas em primeira prioridade na reposição dos vencimentos reduzidos em 2011 e 2012, idem , na reposição das pensões, no desagravamento do IRS, no desagravamento do IVA, ou se vão ser afectas  à redução da taxa social única ou a investimentos de relançamento da economia. ”

Mas, ainda que o Governo aceite ampliar a discussão, as dificuldades não virão apenas de uma das confederações sindicais, ideologicamente prisioneira  do PCP e do BE, ter dificuldade em estabelecer compromissos ou em fazer “trocas”. O problema é mais amplo, é que as confederações, dadas as suas preocupações macro, procuram  colocar-se simultaneamente na óptica dos trabalhadores por conta de outrem, dos trabalhadores formalmente independentes, dos reformados, dos desempregados, dos contribuintes, dos pequenos e médios empresários,  dos consumidores e, não querendo propor o agravamento das condições de uns para aliviar as dos outros, arriscam-se a não sair de uma retórica global.

Um pré-aviso de greve geral deveria ser feito depois dum processo de decisão por parte dos trabalhadores por conta de outrem formalmente sindicalizados e ser dirigido ao poder político e às entidades empregadoras.

Deveria  explicar não só o “porquê” da greve geral mas também indicar o “para quê”, isto é o que se pretende alcançar.

Nas condições em que vêm sendo emitidos, são meros apelos das direcções sindicais dirigidos aos trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, que podem ser seguidos ou não.

Se não forem seguidos, tal redundará em prejuízo dos sindicatos e, claro, dos seus representados e do conjunto dos trabalhadores.

Mas se forem seguidos, e se a greve geral tiver uma larga adesão, que se propõem os sindicatos fazer com o sucesso ?

Link para o texto de Alan Stoleroff

 Para uma inflexão séria nas estratégias sindicais ineficazes

Anúncios

Sobre ivogoncalves

65 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Esta entrada foi publicada em Cidadania, Economia, Empresas, Movimentos sociais. ligação permanente.

Uma resposta a A nova Greve Geral e o debate sobre as estratégias sindicais ineficazes

  1. Alan Stoleroff diz:

    Concordo que essa última pergunta é muito importante, e é nesse sentido uma parte da minha interrogação. Será ainda relevante perguntar: o que poderia ter-se produzido na concertação social se a UGT não tivesse sido deixado a actuar sozinha na negociação com o governo, se as duas centrais tivessem tido uma concepção do que teria sido possível ganhar apoiadas pela pressão da mobilização popular e sindical? Desde então a situação piorou mas a possibilidade de os trabalhadores manifestarem o seu descontentamento ao nível do local de trabalho não melhorou. Por isso as centrais têm que pensar em como dar voz efectiva a todos os trabalhadores que não podem fazer greve, quer por razões económicas domésticas quer devido ao risco de repressão patronal. E por isso falo na política, ou seja, concertação entre os sindicatos e a esquerda – mas com objectivos realizáveis e alternativos, que apontem saídas à crise no interesse dos tais “99%” referido neste post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s