Retrato robot dos professores do superior feito por professores do básico / secundário

Uma anunciada não renovação de contratos de todos os professores do superior que tivessem contrato a termo “ou” fossem convidados (depois percebeu-se que a FENPROF, à margem do que se passa no terreno, o que é grave, foi às estatísticas do Ministério e “decretou” o despedimento dos contratados a termo, passando a “notícia” ao Diário Económico)  deu no blogue de Paulo Guinote, pelo próprio e por alguns comentadores, origem a um conjunto de manifestações de afecto para com os professores do superior que só tinha visto em 2006 quando estes reivindicaram o subsídio de desemprego que os professores do básico e secundário já tinham desde 2000.

http://educar.wordpress.com/2011/09/12/e-virem-ja-para-a-avenida/

Simplificando (podem conferir as referências):

– os professores do superior ganham 5000 euros;

– andam de BMW;

– têm poucas horas de aulas e muitos nunca dão aulas, ou dão aulas em muitos lados;

– “a maior parte são amigos de alguém, que conhece alguém, que conhece quem manda ou quem pode… ultrapassar os condicionamentos, e para os amigos haverá sempre um lugarzinho de convidado, ou de “investigação, ou uma “bolsa” (cheia), ou outra treta qualquer”;

– “este tem sido, uma dos maiores feudos de jogos de interesse, favorecimento, compadrio e nepotismo nos últimos 35 anos – praticamente todo o período pós-revolução”;

– “conheço departamentos onde toda a gente tem qualquer tipo de relacionamento familiar – uma verdadeira pouca-vergonha”;

– “até podia mencionar nomes “notáveis” de “linhagens” académicas nacionais, mas não o farei a não ser que me visse mesmo forçado a isso, aliás, as coisas são tão visíveis que só não as vê quem não quiser”.;

– atrasam-se a lançar as notas dos professores do básico e secundário que vão fazer mestrados ao superior;

– “há imensos professores sem alunos e cursos inventados só para justificar o salário de muitos outros, uma vergonha, são muitos os exemplos, mas podem começar por Évora, Portalegre, Beja, etc…”;

– “os politécnicos expandiram-se que nem acácias por esse pikeno jardim rectangular fora sem rei nem rock e à boa fartazana portuguesa do caciquismo municipal, mas agora estão à rasquinha…acabou-se o tempo das vacas magras e sagradas e é bem feito serem os primeiros a cortar nos amigos que entraram pela porta do cavalo dos concursos à medida”;

– merecem dos professores do básico e secundário a solidariedade que  deram a estes, ou seja, nenhuma; 

– quer se manifestem na Avenida ou no Rossio terão sempre a solidariedade  do Umbigo, demonstrada num qualquer restaurante à mesma hora.

Evidentemente (confiram também) há quem tenha mais conhecimento de causa dos vínculos profissionais e uma visão  mais solidária.

Até que ponto este retrato robot é adequado ? Creio que muitos professores do superior público reconhecerão algumas situações. O resto será caricatura, mas as caricaturas podem ser reveladoras de quem caricatura e de quem é caricaturado. Não conheço professores do superior mais odiados pelos professores do básico e secundário do que aqueles que vieram de lá exercer funções nos Politécnicos e em especial nas ESE’s. Muitas vezes odiados também por jovens assistentes do superior a quem taparam os lugares de carreira.

Quanto aos aspectos reivindicativo – sindicais, houve da parte do superior pouca solidariedade mas, é bom que se diga, não houve também grande regozijo com o mal que  atingia os professores do básico e secundário (o que resultou  até de em muitos casais estar cada um dos conjuges em seu sistema) e de modo geral a própria solidariedade e combatividade no superior, mesmo por interesses e objectivos próprios, é, como toda  a gente sabe, muito reduzida.

No blog de Paulo Guinote, penso poder afirmá-lo, reflecte-se neste momento uma amargura dos professores do básico e secundário em que pesam designadamente:

– a compreensão de que a gestão “profissional” das escolas e os mecanismos de avaliação estão a gerar dinâmicas indesejáveis;

– a frustração de terem participado em grandes e prolongadas lutas que geraram expectativas e se terem sentido, pelo menos uma parte deles, mal representados.

O que posso dizer por agora é que os professores do superior já passaram por isso.

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Esta entrada foi publicada em Ensino Superior, Ensinos básico e secundário, Movimentos sociais. ligação permanente.

6 respostas a Retrato robot dos professores do superior feito por professores do básico / secundário

  1. Álvaro Borralho diz:

    Não é para levar a sério: trata-se de imbecilidades. Também são opiniões pontuais (quantos são verdadeiramente professores?!). Mas reflecte algo que em Portugal se adora: a autoflagelação (a referência ao último livro de Boaventura Sousa Santos é propositada). 500 anos de Inquisição e 50 anos de fascismo deixam marcas.

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  4. Luís Oliveira diz:

    Gostei.
    Não só pela resposta aos comentários do post do Umbigo, próprios de alguma gente com vistas demasiado curtas para ver o essencial da coisa. Nem pelo post do Moutinho, em sequência. Nem pelas alfinetadas nos sindicatos (Fenprof cada vez mais acta-addicted).
    Apenas porque se confirma que o Ivo continua activo na defesa da classe. E isso basta.

  5. Joaquim Sande Silva diz:

    Colegas, não levem a mal mas há várias afirmações cheias de verdade, o que não é razão para o tom azedo e ressabiado dos comentários. Há de facto gente no superior que não merece nem um décimo daquilo que ganha, mas suponho que se passará o mesmo no básico e secundário. A diferença é que, no nosso caso, quem está no quentinho de um contrato a tempo indeterminado não é responsabilizado por aquilo que faz ou não faz. Do mesmo modo, quem se esforça e dá o seu melhor não é reconhecido por isso. É esse o grande mal do sistema e a “luta” deveria passar essencialmente por aí. Encontro-me actualmente numa instituição na Austrália onde o Governo paga por cada artigo publicado e onde um professor pode simplesmente não dar aulas se gerar receitas que cubram os gastos com o seu salário. Um sistema JUSTO que está nos antipodas do nosso, tal como o país em questão. Enfim desabafos. Saudações académicas..

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