Avaliação de desempenho, recompensas e castigos

O prémio da virtude é a própria virtude

O castigo do vício o próprio vício.”

Por que não aceitar, no domínio da avaliação de desempenho, a visão de Bocage ?

Escrevi há dias:

Há quem veja o ensino como um produto mensurável, a escola como uma fábrica, e os professores como trabalhadores, não como operários de uma linha de montagem (o que seria muito mais complexo de gerir), mas como uma espécie de costureiras, cada uma com sua máquina, que podem ser postas a concorrer em função do número de peças produzido, da sua qualidade, da velocidade de entrega… Portanto, pensa-se que os professores podem e devem ser sujeitos a orientação (para além dos padrões de desempenho que, ao abraçarem a profissão, já interiorizaram), devem ser controlados na sua produtividade e devem concorrer entre si, e que precisam de “estímulos materiais” para apurarem o seu desempenho.”

Adiantando um pouco mais a discussão

– é possível, no domínio da prestação de serviços, procurar construir medidas de produção e padrões de aferição da qualidade   que permitam avaliar o desempenho das organizações que os prestam;

– dezenas de anos de tentativas de construção de indicadores de eficácia e de eficiência por parte de organizações públicas mostram que a tarefa não é propriamente  fácil e pode conduzir a perversões;

– é possível estabelecer um nexo, ainda que não tão inequívoco como o SIADAP sugere,  entre o desempenho individual e o desempenho da organização, não esquecendo que o desempenho da organização pode ser influenciado por factores externos e que pode ser injusto repercutir as consequências sobre os funcionários (os pais do Balanced Scorecard e os gestores dignos desse nome sabem-no perfeitamente, mas quando se passa para o domínio da Administração Pública há muitos “presidentes” e “directores” que não o percebem);

– em algumas organizações a cooperação entre os funcionários dentro de uma equipa, e não a concorrência,  tem de ser encorajada   (veja-se por exemplo o modelo de avaliação de desempenho adoptado para os serviços locais da administração fiscal).

Neste contexto, é útil que as organizações reflictam sobre o seu próprio desempenho com a consciência de que não existe one best way para o medir, idem sobre os padrões de desempenho mais adequados para os seus membros, que nunca serão inteiramente consensuais e podem evoluir ao longo do tempo mas que em qualquer caso ganham em serem interiorizados e não impostos ou “induzidos” por estímulos pavlovianos.

O processo de criação da famosa “cultura de avaliação” é isso mesmo: um processo,   que pode ser favorecido  por um decreto ou regulamento, mas que não se inicia e conclui  na data de entrada em vigor que constar do Diário da República.

E pode até ser contrariado  quando os decretos, os regulamentos, e até algumas simples   práticas dos órgãos directivos, se revelam controversos.

Para não falar de toda a confusão  gerada nos ensinos básico e secundário, veja-se por exemplo o que revelou  a análise dos inquéritos pedagógicos do ensino superior para um Encontro realizado em Janeiro de 2004:

Análise Empírica dos Instrumentos e Estratégias de Avaliação Pedagógica no Ensino Superior  (Adriano Brandão, Instituto Superior da Maia, Natacha Teixeira, Université de Lyon2, Sara Raquel Almeida, Catarina Melato)

O «bom professor» paira algures por entre questões aos estudantes: análise de questões dos inquéritos de avaliação pedagógica de instituições de Ensino Superior (Paulo Lopes)

Relatório sobre os Inquéritos de Avaliação Pedagógica (apresentado por Nuno Ivo Gonçalves)

Mesmo em relação à avaliação da produção científica, mais consensual, também é necessário perceber que o publish or perish pode suscitar distorções :

  “Métricas e peer review”
(Teresa Alpuim )

Para que fins, neste contexto e com estas limitações, poderá ser utilizada a  avaliação de desempenho ? Vejo duas hipóteses:

–  no início de carreira, desde que com acompanhamento de orientador qualificado, e com propósito  formativo  e (porque não assumi-lo ?)  com o propósito de despistar casos em que os interessados não têm condições para ficar na profissão;

– em situações já estabilizadas profissionalmente, com vista a garantir que quem assume certas responsabilidades ou exerce certos poderes, tem condições para o fazer (pense-se na revolução que seria se o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior na definição de requisitos de funcionamento das instituições do ensino superior ou na regulação do processo de constituição de órgãos científicos escrevesse, em vez de “doutores”, “doutores científicamente activos”).

Instituir de golpe todo um sistema de medida de n vertentes da actividade e de diferenciação de desempenhos, associado a um sistema de recompensas (com quotas não para a recompensa, mas para o próprio reconhecimento do mérito…) e castigos em torno da avaliação de desempenho é que não foi  realista, e vem mostrando ser disfuncional. O facto é que na agenda pesava a contenção salarial e a necessidade de avaliação surgiu como um mero pretexto.  Esse “pecado original” continua a inquinar todo o processo, mesmo em tempos de congelamento de alterações de posição remuneratória. Daí que o que se vem passando na esfera do Ministério da Educação e Ciência apenas suscite um olhar morno. 

Voltando a Bocage. Todas as sociedades e organizações precisam de fazer interiorizar um conjunto de crenças que acreditam  contribuir para manter a disciplina e a coesão, e quem  ponha em dúvida essas crenças é seu inimigo. O poeta, como se sabe, foi sujeito a um processo de “reeducação”  numa instituição especializada e voltou de lá aparentemente corrigido. Actualmente parece haver mais tolerância para quem põe em dúvida as verdades oficiais.   Porém, nunca fiando.

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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Uma resposta a Avaliação de desempenho, recompensas e castigos

  1. nsousa diz:

    Sobre o “publish or perish”: dois argumentos e respetivo contra-argumento.

    1. É verdade que 90% (99%??) da investigação que se faz é pouco mais que irrelevante. No entanto, ela serve como massa crítica para se atingir progresso palpável. É o velho adágio estado-unidense: quantidade tráz a qualidade.

    2. Exigir investigação irrelevante a pessoas genuinamente talentosas em início (ou mesmo fim) de carreira é desperdício de matéria cinzenta. Sem dúvida. Mas o problema é POLÍTICO. O contribuinte precisa de saber que as universidades estão a usar bem o dinheiro dos seus impostos. A gestão exige produção porque têm contas a prestar. É certo que produção irrelevante tem pouco peso científico, mas isso o contribuinte NÃO SABE. Além disso há problemas acessórios (exemplo: como distinguir os futuros professores universitários se não usarmos a produção científica?).

    Basicamente o problema é muito complexo. Há no entanto uma coisa que tem de ser feita. Se se um prof. do superior é avaliado em 50-60% na produção científica, tem que se lhe dar condições para a fazer. Hoje em dia não é isso que acontece. Os profs. andam atualmente tão sobrecarregados de tarefas docentes e administrativas passam facilmente 90-95% do tempo de volta de aulas e papéis. Isto não pode continuar assim.

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