Concursos com fotografia chegam aos ensinos básico e secundário

Renato Nunes, no blogue de Paulo Guinote

““Cunha”afinal, a História repete-se…

          Existe hoje em Portugal uma tendência muito vincada para reconhecer que a crescente autonomia das escolas públicas poderá contribuir para eliminar vários entraves ao progresso nacional. Nesse sentido, argumenta-se que o maior conhecimento da realidade local concreta de cada Escola, por oposição à acção de gabinete dos pedagogos burocratas do Ministério da Educação, centralizado na longínqua e macrocéfala capital, poderá agilizar o processo de resolução dos problemas diagnosticados. Um exemplo prático: cada escola deveria poder contratar directamente os professores que melhor correspondem ao perfil da sua realidade.

          O processo que permitirá às escolas (por agora) públicas contratarem os seus docentes já foi iniciado e dificilmente será parado. Se alguma lição a História nos permite sustentar é que estes processos costumam ser irreversíveis e imparáveis, pelo menos até que as massas percebam ou recordem (amargamente) as suas consequências.

          Ora, sensivelmente a partir da primeira semana de Agosto começaram a ser publicitadas, a nível nacional, na página oficial do Ministério da Educação, vários horários respeitantes aos diversos grupos de recrutamento, cabendo depois directamente às escolas escalonar os candidatos, entre outros, através dos seguintes critérios (que podem mudar de escola para escola): média final da licenciatura, tempo de serviço, idade, ter leccionado no ano anterior na escola em questão (!), conhecimento do território educativo da escola e resultado da entrevista. Importará frisar que os pesos a atribuir a cada um dos itens anteriormente referidos variam, muitas vezes, de oferta para oferta, mas uma percentagem decisiva é quase sempre atribuída ao factor entrevista…

          Salvo raras excepções (que tenderão a desaparecer), caso a caso, os arquitectos do sistema concebem a priori um perfil recheado de pré-requisitos que se encaixam precisamente no candidato que se deseja integrar no sistema (“fato à medida”, como já se lhe chama). Ou seja, em vez de analisar atentamente o currículo dos candidatos, inventariam-se, antecipadamente, um conjunto de condições que apenas um determinado proponente poderá, à partida, reunir! Quem já algum dia concorreu a um lugar (fantasma) numa autarquia conhece muito bem o esquema frequentemente engendrado. Assim, os desejados são habilmente seleccionados, antes sequer de terem movido um dedo para realizar o exame de arremedo ou pronunciado uma palavra sequer durante a famosa entrevista, que, por tão subjectiva e oculta, tudo permite à entidade empregadora. Sempre, obviamente, ao abrigo da legislação, pura e dura. Hipocrisia…”

(para ler todo o artigo:

http://educar.wordpress.com/2011/08/30/opinioes-renato-nunes/)

No Superior, onde desde sempre as escolas recrutaram o seu próprio pessoal docente, houve também quem chamasse as coisas pelos seus nomes:

http://www.snesup.pt/cgi-bin/getinfos.pl?EEVVEukFuudSTQfEOd

http://www.snesup.pt/htmls/EEZylkllFuyjmCnvNK.shtml

Passou-se mesmo à acção. Houve n concursos impugnados pelo Ministério Público.

Os Estatutos de Carreira foram revistos.

Há muito tempo que ninguém fala do assunto. Tudo resolvido ?

 

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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2 respostas a Concursos com fotografia chegam aos ensinos básico e secundário

  1. nsousa diz:

    Sinceramente não sei se o problema da cunha pode ser resolvido por via administrativa.

    Um amigo contou-me que na China imperial os lugares na administração pública eram providos por concurso em que os candidatos preparavam o processo que depois seguia ANÓNIMO para os avaliadores, oriundos do outro extremo do reino para o qual o lugar seria. Os avaliadores escolheriam o vencedor pelo código. Apenas a administração central saberia a quem esse código corresponderia.

    Claro que para posições tão específicas e exigentes como o são as dos altos cargos públicos (podemos aqui incluir o ensino superior se quisermos) seria difícil fazer o processo correr desta forma.

    Resumindo, não sei se a via administrativa resolve o processo. Mas a alternativa, a evolução socio-cultural no sentido da exigência, responsabilização e competência afigura-se lenta e cheia de percalços no caminho…

  2. Essa dos altos cargos públicos vai merecer um post separado…

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