Faz sentido “isentar” da avaliação parte dos professores ?

A avaliação de desempenho que vem a ser proposta  para a Administração Pública e a subordinação das alterações de posicionamento remuneratório, de prémios, e até de resultados de concursos a essa avaliação, é uma transposição de práticas que vêm sendo propostas, e até seguidas, por muitas organizações empresariais, sobretudo as de alguma dimensão, que pretendem garantir a identificação  dos muitos milhares de trabalhadores de uma organização complexa com um conjunto de objectivos previamente assumido e divulgado pela liderança máxima.
 
Onde escrevi “empresarial” poderia até dizer “fabril”, quanto descemos ao nível de uma produção cujo volume é mensurável e pode ser relacionado com a “produtividade” de cada trabalhador.
 
  Há quem veja o ensino como um produto mensurável, a escola como uma fábrica, e os professores como trabalhadores, não como operários de uma linha de montagem (o que seria muito mais complexo de gerir), mas como uma espécie de costureiras, cada uma com sua máquina, que podem ser postas a concorrer em função do número de peças produzido, da sua qualidade, da velocidade de entrega. Deixarei para outra ocasião os comentários a esta abordagem.  
 
Portanto, pensa-se que os professores podem e devem ser sujeitos a orientação (para além dos padrões de desempenho que, ao abraçarem a profissão, já interiorizaram), devem ser controlados na sua produtividade e devem concorrer entre si, e que precisam de “estímulos materiais” para apurarem o seu desempenho.
 
“A resistência dos professores [dos ensinos básico e secundário ] à diferenciação” de que  falava  Maria de Lurdes Rodrigues tem até agora tornado difícil de aplicar esta orientação, se bem que, como tem alertado Paulo Guinote no seu blogue, muitos pareçam ter-lhe tomado o gosto. 
 
Vê-se agora que Nuno Crato pretende “isentar” de avaliação os professores dos escalões superiores (escalões não são categorias, aliás a categoria de professor titular acabou por ser suprimida e reabsorvida na categoria de professor), o que vai pôr em causa o sacrossanto princípio da universalidade da avaliação no âmbito do SIADAP, e, como Marcelo Rebelo de Sousa alertou há semanas, pode provocar uma reacção em cadeia.
 
Volvendo os olhos para uma página (a 27 do Primeiro Caderno) do Expresso de 15 de Janeiro de 2011 – com entrevista a Eric Hanushek, da Universidade de Stanford e ao elogio que na mesma página, lhe faz o “Passeio aleatório” de Nuno Crato, percebe-se a posição. Para Hanushek “Vamos olhar para as pessoas que estão a fazer um bom trabalho e definir políticas que ajudem a manter estes profissionais nas escolas e a afastar os maus professores da sala de aula”, “Sabemos que os dois ou três primeiros anos de experiência são importantes e que pode haver progressos nesse período. Mas depois disso nada muda. ” Um professor com cinco anos de experiência é, em média, tão bom como um professor com 25 anos”   . 
 
Isto talvez apontasse para um “corte” numa fase menos avançada da experiência docente, distinguindo os professores não em duas categorias (e também não em função do escalão atingido), mas em duas situações diferenciadas quanto a necessidade de acompanhamento, de feed-back, e de apoio formativo cuidando também de diferenciar compensações e de dividir em dois o “bolo” reservado para incentivo pecuniário,  fixando quotas – a haver quotas – dentro de cada um dos grupos e não no conjunto dos avaliados, sobretudo se os docentes mais experientes avaliarem os colegas menos experientes do seu estabelecimento ou agrupamento.
 
 
E nas carreiras do ensino superior ?
 
Embora os Estatutos de Carreira enfatizem que devem contar para avaliação os graus e provas académicos, bem como  as avaliações colhidas no normal desenvolvimento da  carreira (relatórios, avaliação de relatórios, avaliação de projectos e de centros de investigação, prémios científicos e, admissivelmente, os resultados de concursos a que os docentes se vão apresentando) a generalidade das instituições, sobretudo universitárias criou um conjunto de tabelas e de fórmulas que dão um ar muito “objectivo” à avaliação . Aqui sem dúvida as dezenas  de iluminados que desenharam os regulamentos de avaliação gostaram de fazê-lo (e as centenas que fizeram um inconfessado copy paste gostaram e ainda gostam de passar por autores genuínos )  e não me custa admitir que muitos destinatários se sentirão mais defendidos por o seu trabalho ser avaliado “objectivamente” .
 
No entanto, também se justificaria aqui a distinção para efeitos de avaliação entre dois grupos de professores, até porque a maior parte dos Regulamentos desprezaram a possibilidade de recurso a avaliadores externos e cometeram aos professores das categoias mais elevadas a avaliação dos restantes.
  
Onde fazer neste caso o “corte” ? Diria que na titularidade da agregação que exige uma actividade científica intensa pós-doutoramento e é atribuída por um júri predominantemente externo.
 
É claro que esta posição não tem a menor hipótese de ser aceite quer na Universidade quer no Politécnico.
 
Na Universidade, porque apesar de os Estatutos mandarem valorizar na avaliação de desempenho as provas académicas, e por maioria de razão a agregação, a quase totalidade dos regulamentos de avaliação de desempenho ignora ou minimiza (em termos de pontuação) a sua relevância  em nome da aplicação de tabelas geridas “na casa”.
 
O Vice-Reitor da Universidade de Coimbra, Henrique Madeira, explicava-me na discussão do projecto de regulamento de avaliação de desempenho que da agregação só seria de aproveitar a “lição de síntese” que teria lugar numa linha reservada aos “outros factores”       
 
No Politécnico, porque até a valorização do doutoramento é recente, muitos dos novos / futuros doutorados não vão ser incentivados / ter condições institucionais  para continuar a investigação pós – doutoramento e porque a agregação , na ausência de um sucedâneo doméstico administrativamente equivalente aparece como prova para universitários, de difícil acesso para os professores do politécnico.
 
Para além de o desempenho de cargos de gestão que vários Institutos premeiam com Excelente  ou Muito Bom  sem necessidade de qualquer avaliação ser, em certos meios, considerad0 mais prestigiante para a evolução da carreira dos professores.

Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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5 respostas a Faz sentido “isentar” da avaliação parte dos professores ?

  1. Pingback: Pela Blogosfera – Comunicar « A Educação do meu Umbigo

  2. Não, não faz sentido isentar apenas esses…:)

  3. antiinveja diz:

    E esta avaliação de treta faz sentido?

  4. Mulher de Lisboa diz:

    Boa tarde Ivo.

    Sou nova no WordPress e o seu blog foi dos primeiros que descobri aqui. Sendo eu professora e formadora para o IEFP, gostei de ler os seus artigos sobre o Ensino.

    Em relação a este artigo sobre a nossa avaliação, só lhe digo assim: palavras para quê? A cada ano é uma nova dificuldade que nos é imposta.

    Continuação de uma boa escrita e fique bem.

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