Puxões de orelhas

O Bloco de Esquerda cometeu o erro histórico de pensar que havia em Portugal espaço para mais um partido catalisador do voto de protesto e do ressentimento. De facto, só há espaço para um partido e esse é o PCP que, aliás, o tem ocupado de modo exemplar. Não foi totalmente por culpa do PS que se perdeu a oportunidade histórica de criar uma verdadeira alternativa de esquerda com vocação de poder

Boaventura Sousa Santos in Público de 24 de Março de 2011

O BE devia ser o parceiro de coligação do PS, tal como os Verdes são o parceiro do SPD na Alemanha…De uma vez por todas o BE tem de ser responsabilizado pela sua recusa em ‘sujar as mãos’

Henrique Raposo in Expresso de 26 de Março de 2011

Há aqui uma espécie de desencanto do criador pela evolução da criatura que talvez faça sentido no caso de Boaventura Sousa Santos mas não obviamente, no caso de Henrique Raposo.

Os movimentos sociais tendem a escapar aos projectos dos criadores.

Admito que, por altura da formação do Bloco, pensei igualmente estar-se perante a formação de um partido social democrata de esquerda, vocacionado essencialmente para a intervenção eleitoral para a qual, sintomaticamente, se organizou  numa base  territorial e não socio-profissional.

No entanto a renúncia das organizações fundadoras à sua inscrição como partidos políticos e o grande crescimento eleitoral e em número de deputados terão aberto  outros caminhos. A própria ultrapassagem do Partido Comunista num padrão que nada tem de novo – já nas eleições para a  Assembleia Constituinte o conjunto das organizações tidas como extrema esquerda recebeu em muitos círculos mais votos que os do PCP com uma distribuição regional que faz lembrar a do actual Bloco de Esquerda – e, sobretudo, a penetração nas camadas mais jovens, indiciando que o PCP se virá a  extinguir por envelhecimento dos seus quadros, pode ter sugerido ao BE a importância de consolidar a prazo uma posição de liderança na área à esquerda do PS.

No entanto não é claro o posicionamento estratégico do Bloco.

Ao contrário do que agora começaram a dizer muitos politólogos e ecoa a comunicação social o Bloco de Esquerda  não se tem apresentado como um partido anti-sistema ou fora da área do poder.

Mesmo sem tentar interpretar a estratégia que levou ao apoio à candidatura de Manuel Alegre, chamaram-me a atenção:

– o “Eu” insolitamente assumido por Francisco Louçã durante os debates eleitorais de 2009;

– a prodigiosa imaginação para delinear esquemas que aumentem a receita pública (um dos quais entretanto assumido pelo PS depois de o ter repudiado);

– a aposta no “Orçamento Base Zero” para controlar a despesa pública, que já aqui comentei.

https://ivogoncalves.wordpress.com/2011/02/04/o-orcamento-base-zero-e-o-jardineiro-da-universidade-de-coimbra/

No plano social, é certo que o BE não deixou de assumir numerosas causas, designadamente dos professores e de outros trabalhadores do sector público, dos precários, dos recibos verdes, da juventude, e tem sido ele a dar notícia de movimentações importantes no sector dos serviços, inclusive algumas particularmente significativas  sobre os call-centers e sobre a dinamização de uma nova oposição sindical nos bancários do sul e ilhas, desertados pelo Sindicato da CGD e pelas “listas unitárias”.  A política de alianças que vem seguindo permitiu no SPN e SPGL da FENPROF  bater as correntes afectas ao PCP e tem-no reforçado dentro da CGTP. Mas isto não é incompatível com uma visão de participação no poder, que poderia ser ter lugar para salvaguardar os interesses dos sectores de que se vem fazendo porta-voz.

No plano autárquico o BE congrega um número crescente de eleitores e de eleitos, mais jovens, descontentes com a gestão do PS ou do PCP. Aqui o reforço da posição passa por não fazer coligações eleitorais e por tentar organizar o trabalho autárquico. Também nada de surpreendente.

A questão das alianças visando a partilha do exercício do poder é obviamente um ponto delicado. O Bloco parece ter medo das parcerias não só por ter medo dos possíveis parceiros, mas talvez também por ter medo de si próprio, de se ver tentado pelo poder, de se ver desviado.

Na Câmara de Lisboa essa atitude revelou-se extremamente negativa. Quem andou em 2007 a defender que “o Zé faz falta” deveria ter feito um balanço mais realista da intervenção do seu eleito, e sobretudo perceber que estava a lidar com um aliado e não com alguém das suas próprias fileiras. Em  2009 justificava-se ter entrado na grande coligação que, pressionado pelo risco de derrota, mas de qualquer modo na tradição unitária de Jorge Sampaio, António Costa aceitou promover.

No plano nacional, tenho dúvidas sobre se terá havido  alguma oportunidade séria, aliás a circunstância de o grupo parlamentar do BE ter ficado àquem do número de deputados  necessário para viabilizar um governo com o PS torna o debate meramente académico.  E por outro lado Henrique Raposo, ao falar da coligação SPD / Verdes, talvez se tenha aproximado, sem se aperceber, do ponto crucial: em Baden-Vurtemberga foram os Verdes que ficaram à frente e terão a Presidência do Governo do Estado.

Todavia o mote está dado, o Bloco deixou de estar na moda e passou a ter “má imprensa”, as sondagens evidenciam a perda de uma importante franja de eleitores, o voto útil e a distribuição de votos por círculos eleitorais poderão levar a um substancial recuo do grupo parlamentar.

E o apego às causas sociais pode defrontar-se com a “ingratidão” dos eleitores., entre os quais os cortejados professores … la donna é mobile  ….obrigado pelo que fizeram por mim, mas vou votar noutro lado.

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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Uma resposta a Puxões de orelhas

  1. O poder pode corromper – casos não faltam – e o não o ter tende também a teme-lo e odia-lo na mesma medida. Será esse sentimento por parte do BE ódio ou amor?
    Já agora aquem está entregue verdadeiramente a defesa da “Social-Democracia” em Portugal?

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