Como recuperar empresas em dificuldades

Turnaround em Portugal (Como recuperar empresas em dificuldades), Autor: Rogério Ferreira do Ó, Editor: Horácio Piriquito, Primeira edição: Novembro de 2010.
  
O autor, economista com percurso profissional no sector empresarial e na banca, divulga, com introdução de António Gomes Mota, as linhas da  sua dissertação de Mestrado em Gestão apresentada no ISCTE.
 
Na vasta problemática da recuperação de empresas em dificuldades, cujas causas o autor tipifica, apoiando-se em autores estrangeiros e nacionais, citando um trabalho de  1999 de Amaro Laia, construído sobre a análise dos relatórios dos gestores judiciais e transcrevendo excertos de uma entrevista que realizou a Amadeu Boleixa, ligado desde 1998 aos Gabinetes SIRME e PEC do IAPMEI (e mais recentemente ao AGIIRE) , escolhe analisar experiências bem sucedidas de turnaround em Portugal bem sucedidas (se a palavra parece estranha ao leitor, experimente “dar a volta “). Conseguidas seis entrevistas ( Almerindo Marques- RTP e EP, Amadeu Boleixa, António Cardoso Pinto – EFACEC, Fernando Pinto – TAP, Frederico Moreira Rato – REDITUS, Silva Rodrigues – CARRIS) e validados 28 dos 33 questionários recebidos (excertos das entrevistas e resumo da informação das acções desenvolvidas e das medidas tomadas no âmbito das experiências de turnaround   – existência, intensidade, impacto – podem ser encontradas em Apêndices) vemos desenrolar a discussão dos resultados. Dissertação claríssima, agradável, conclusiva sempre que possível, convincente. Num contexto em que só foi identificado um outro trabalho académico sobre Turnaround em Portugal — uma dissertação de Mestrado sobre o Grupo EFACEC, submetida em 2004 na Universidade Nova de Lisboa.
 
Um trabalho que fazia falta. Uma publicação oportuna.
 
( Declaração de interesses: trabalhei profissionalmente em recuperação de empresas como membro da equipa de coordenação do GACRE 1996-1998 e da AUDITRE – 1998-1999), exerci funções de fiscalização em dois pequenos grupos empresariais privados, defendi no ISCTE uma dissertação de mestrado que tratava a problemática das empresas em dificuldades sob o ângulo das políticas públicas, tive o prazer de ter como arguente João Carvalho das Neves, catedrático do ISEG com trabalhos publicados sobre Fusões & Aquisições e gestor judicial da Torralta)     
 
 Parece-me de fazer duas referências adicionais, uma sobre o trabalho em si, outra sobre a falta de atenção do ensino superior a esta problemática.
 
 Sobre o trabalho:
 
Nas respostas ao questionário, o autor congratula-se, compreensívelmente, por a maioria das respostas identificarem a falta de capacidade de gestão como sendo a principal origem das dificuldades. Vem-me no entanto a dúvida sobre se esta capacidade de auto-exame da organização não terá sido adquirida, justamente, por via da constituição de novas equipas de gestão, as que respondem ao questionário.
 
Também nas respostas ao questionário, não é possível discernir um impacto positivo ou negativo quanto ao envolvimento dos sindicatos. O  autor, que dá relevo ao novo paradigma de relações laborais a nível de empresa emergente por exemplo na Autoeuropa, emite a hipótese  de que só não tiveram um impacto negativo porque não tiveram condições para influenciar. A entrevista com Fernando Pinto mostra que os sindicatos estiveram sempre presentes durante o turnaround na TAP, mas cooperaram. Na EFACEC cooperou o “presidente” da Comissão de Trabalhadores. A entrevista com Silva Rodrigues foca as numerosíssimas greves dos primeiros tempos da sua segunda experiência na CARRIS e a forma como lhes deu a volta. No meu penúltimo ano lectivo no Instituto Superior de Gestão, tendo ficado afecto à disciplina de Projecto Empresarial, ouvi várias vezes este gestor falar da sua experiência na empresa, e das suas preocupações em matéria de recursos humanos. Saiu muita gente, foram feitas muitas novas admissões. Não me surpreendi que, apesar da convocação conjunta de todos os sindicatos, a recente greve geral tenha tido pouco impacto no movimento da CARRIS.
 
Ainda nas respostas ao questionário, só em um quinto dos casos se regista a procura de auxílios públicos. Devo dizer que na minha experiência pessoal, que tem a ver sobretudo com empresas de modo geral endividadas perante o Estado e outras entidades públicas (ou seja com um universo pouco reflectido na amostra e onde o turnaround bem sucedido foi a excepção) os Sindicatos foram, no período de 1995 a 1999, um grande apoio dos empresários em situação difícil, e os trabalhadores como que “escudos humanos”. Numa das versões embrionárias  do documento que veio a ser aprovado em 1996 como Quadro de Acção para a Recuperação de Empresas em Situação Financeira Difícil (QUARESD), o  Governo Guterres descrevia-se  como acossado por forças político-sociais de sinais contrários. A viragem  de 1998 que favoreceu a compra de empresas em situação difícil por “empresas boas”,  pretendeu  fugir a estas pressões mas nalguns casos apenas introduziu outro parceiro no jogo – o potencial comprador a quem os incentivos à aquisição interessavam mais do que a própria empresa-alvo.
 
Noto  a propósito que a procura de outros parceiros ou mesmo a de comprador para a empresa não parece estar tipificada entre as  acções desenvolvidas no questionário que serviu de base à recolha de evidência empírica. 
 
Sobre as preocupações do ensino superior com esta problemática:
 
Por várias vezes procurei sensibilizar os colegas do Instituto Superior de Gestão que leccionavam Estratégia Empresarial ou disciplinas semelhantes, para a importância, de, com o apoio em estudo de casos, se falar nas suas disciplinas nas crises das empresas e nas formas  de a superar. Mas estas preocupações não são, aparentemente, moeda corrente no mundo académico.
 
Sei de uma escola de gestão de Lisboa que foi  há anos contactado por  dirigente de uma associação de gestores judiciais (sendo ele próprio gestor executivo de uma confederação empresarial) sugerindo a criação  de um curso de pós-graduação  na área, de certo modo tentando replicar na capital algo que a Universidade Portucalense Infante Dom Henrique havia conseguido realizar no Porto. A oportunidade de mercado era evidente mas  o papel (pois que, ao que parece, chegou a haver um papel)   e a ideia foram arquivadas.
 
Anos depois, já a escola, ela própria em dificuldades, tinha mudado de mãos, foi, por um professor da escola e pelo mesmo gestor,  elaborada uma proposta detalhada com disciplinas, horas, propostas de nomes, captação de alunos, e até ligação com os planos de estudo regulares.  Continuava a haver oportunidade de mercado (curiosamente os anos seguintes conheceram uma crise empresarial de extensão  sem precedentes) , a escola era detida por um grupo que ele próprio continuava a apostar nas aquisições de empresas em dificuldades como forma de crescimento, mas a ideia não deixou de ser novamente  arquivada.
 
Às vezes, a  falta de capacidade de gestão  parece estar entranhada nas paredes dos edifícios e transmitir-se aos novos ocupantes.

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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