Um centenário e um bi-centenário em concorrência

Há meses veio no Expresso um apontamento de irritação de alguém que se queixava de que o centenário da República estava a ofuscar o bi-centenário das invasões francesas, em particular a comemoração dos 200 anos da batalha do Bussaco.

 Calculo que haja aqui clivagem política, a esquerda está mais com a República e a direita mais com a luta contra as invasões, momento de renascimento do sentimento patriótico, não esquecendo que parte da esquerda liberal, afrancesada, andava  lá por fora com a Legião Portuguesa e voltou nas hostes de Massena.

Aconselharia alguma  calma, as invasões têm vindo a ser comemoradas ao longo dos últimos anos e em rigor poderão sê-lo até 2014, se quisermos evocar a participação do renascido exército português ao lado dos britânicos nas campanhas de Espanha e do Sul de França, coisa de que nunca se falou muito aos jovens.

Procurei comprar alguns dos livros editados a propósito da comemoração da República e sobretudo aqueles que vêm sendo publicados a propósito das invasões, muitos dos quais produtos de investigações históricas recentes. Os centenários não são apenas momento de evocação de velhas glórias, ou de instilação de falsas memórias, podem também fazer avançar o conhecimento.

Como o meu orçamento é limitado, mesmo antes de saber que Teixeira dos Santos me iria penalizar em 10 %, registei apenas:

– a reeditada “História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino”, inicialmente publicada em 1810 e 1811 (José Acúrsio das Neves);

– “O Tempo  de Napoleão em Portugal – Estudos Históricos” (Comissão Portuguesa de História Militar, 2008)

– “Memórias de Massena – Campanha de 1810 e 1811 em Portugal” (General Koch)

– “Memórias do Marechal Soult – Sobre a Guerra em Espanha e em Portugal” (pelo próprio)

– “Guerra Peninsular – Novas Interpretações” (Instituto de Defesa Nacional, Actas do Congresso realizado em 2002)

Não vi até agora reeditados, e tenho pena os seguintes livros, a que na minha juventude tive acesso na biblioteca do meu Pai :

– “O Sargento – Mor de Vilar” , de Arnaldo Gama, passado na época da segunda invasão, referindo, a fácil ultrapassagem por Soult dos postos de Ruivães e Salamonde, o combate do Carvalho de Este, os assassinatos em Braga antes da queda, a defesa anarquizante e a tomada do Porto, a retomada do Porto, a retirada pelas montanhas (é interessante confrontar a narração com as Memórias de Soult);

– “O Segredo do Abade”, de Arnaldo Gama (abre com um episódio de guerrilha rural, uma emboscada a uma coluna francesa que circulava no Norte depois da ocupação do Porto por Soult);

– “Coração Português”, de Rocha Martins, o último da trilogia que inclui “O Bichinho de Conta” e “Batalha de Sombras”, e que trata da resistência à ocupação de Junot, com alguns episódios de guerrilha urbana em Lisboa.

Em qualquer dos três os dilemas da “esquerda moderna” da altura, que procura o caminho entre o patriotismo e a admiração pelas ideias que vêm do estrangeiro.

Rocha Martins, monárquico constitucional, amigo pessoal de Sidónio, evoca veladamente os feitos da altura (anos 1940) praticados pela resistência francesa contra a ocupação  hitelariana. 

“A terra é nossa ! Quem a pisar por força…Ficará bem aconchegadinho nos seus torrões !”

Não estou a fazer paralelos com a actualidade. A terra já nem sequer é nossa.

Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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