Um Professor

Mais precisamente, quando o conheci, um assistente, no tempo em que os assistentes eram Professores.
 
O ano de 1969 não se esgotou na Crise Académica de Coimbra. Em Lisboa no ano  de 1969/70  a contestação estudantil, com aspectos ideológicos bastante marcados, levou o então Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF) ao rubro. O ano de 1970/71 foi de trégua, e ajudou a criar a ideia do ISCEF como “ilha de liberdade”. António Manuel Pinto Barbosa, Ministro das Finanças de Salazar durante muito tempo, e que conseguiu, até 1973 e até ao caso da capela do Rato, defender Francisco Pereira de Moura das retaliações do regime,  assumiu nesse ano o cargo de Director. Exigiu ser coadjuvado por cinco Subdirectores eleitos, um por cada grupo de doutorados (o Decreto-Lei nº 132/70 de Veiga Simão passara os “Primeiros Assistentes” , doutorados, a “Professores Auxiliares”, Pereira de Moura haveria mesmo de ser nomeado por convite Professor Catedrático sendo demitido da função pública escasso tempo depois ).
 
O primeiro ano abriu em Dezembro para acolher os 1200 inscritos, nos quais me contava  – 4 turnos teóricos, 28 turmas práticas, nesse tempo não havia numerus clausus.  Coordenando as disciplinas de Teoria Económica I e de Economia Aplicada I , Ernâni Lopes, próximo de Pinto Barbosa,  regia dois dos turnos teóricos  e chefiava  uma equipa de 30 elementos, muitos dos quais destinados no pós – 25 de Abril a sólidas carreiras políticas ou  profissionais. Fluente e seguro, permitindo as interrupções mas controlando-as, preparou-nos um livro de “readings” em diversas línguas, incentivou-nos a eleger delegados de turma para negociar a avaliação de conhecimentos com a equipa docente. Ainda  me lembro do David Justino e do Moser, delegados da turma 4. A avaliação negociada veio   a incorporar de forma muito rigorosa a avaliação do grupo de trabalho pelo docente, a avaliação do aluno pelo grupo, a avaliação do aluno pelo docente, esta eliminatória. A nível de associação de estudantes criou-se uma situação nova: uma coligação das várias esquerdas, liderada por Ferro Rodrigues  reune 732 votos contra 559 votos de uma lista “da Sedes ” (Corrreia da Cunha, Liberato, Manuel Sebastião, os dois últimos ainda nos circuitos  políticos e profissionais) e desfaz-se logo a seguir.
 
Este ano de liberdade foi sol de pouca dura, não sobreviveu à recusa de Pinto Barbosa em  continuar. No ano seguinte, invasão da polícia, encerramento da associação, greve de quatro meses até à sua reabertura. Os 1200 alunos do antigo primeiro ano (progressivamente reduzidos mas que acabaram 600 em 1975, depois de no pós 25 de Abril terem chamado a si a organização do 5º ano em colaboração com os professores), menos politizados, tinham ganho o gosto tanto à liberdade académica e em termos mais amplos, à liberdade cívica, como à democracia no movimento associativo estudantil, recusando a liderança de “reuniões de colaboradores” auto-designadas como vanguardas e insistindo na eleição dos seus representantes.
 
Não segui, a não ser episodicamente e  pela  comunicação social, a vasta  carreira de Ernâni Lopes, nem tive com ele qualquer novo contacto nestes quarenta anos, salvo uma vez. Soube por conhecidos comuns  do seu doutoramento na UCP, que nada acrescentou verdadeiramente ao seu curriculum. Estive tecnicamente sob as suas ordens entre 1983 e 1985 no Ministério das Finanças e Plano, mas  era um Ministro não-residente, preparando a adesão às Comunidades Europeias. Em 1993 num voo Cidade da Praia  – Lisboa reconheceu-me e veio falar comigo durante a viagem. Nunca percebi bem a sua opção pela criação de uma empresa de rating, no entanto pelos elogios produzidos aquando do seu falecimento,  entendo agora melhor o que  um macro-economista atento ao futuro conseguiu encontrar nessa linha de actividade.
 
Não perfilhando muitas das suas opções, estou,  estive sempre, consciente – e não serei o único do meu curso – de que devo a Ernâni Lopes uma parte da joie de vivre  e das possibilidades de aprendizagem de que inegavelmente beneficiei em 70/71 no então ISCEF. E que (tal continua a ser a minha ideia), não há verdadeiramente  ensino superior se não houver condições para professores e estudantes trabalharem em liberdade.

Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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