Os caça – salários

Há quem não pense, egoisticamente, no montante do seu salário, mas pelo contrário viva obcecado com os salários dos outros.

Agora estou elucidado, depois de ler sucessivamente no Expresso  “Finalmente” (sobre os cortes de vencimentos da Administração Pública) e  “O pior  cego é o que não quer ver” (sobre os cortes de salários nas empresas públicas) , consegui passar uma vista de olhos pelo  “Ainda sobre a redução de salários” , também de João Vieira Pereira, ex-director do defunto Semanário Económico (esses já não comem mais salário nenhum) e actual director adjunto do Expresso, o qual  diz na terceira peça que o privado também tem de reduzir os custos de trabalho, com três hipóteses 1 – aumento do horário de trabalho ( não vale a pena, diz, porque já é costume trabalhar mais do que o horário sem pagamento) 2 – redução de taxa social única (o Estado não sobreviveria) 3 – redução de salários (a melhor, mas o Governo e o PSD têm de mudar a legislação laboral). Acrescenta “Ficar cinco ou dez anos à espera que os salários desçam por via de aumentos zero ou inferiores à inflação não é viável”.

Por isso o Expresso publicou artigos pro-redução de salários no sector público, de Pedro Maia  (da Universidade Carlos III de Madrid, onde ninguém cortará salários, espero) e de Correia Guedes (da Universidade Católica, onde também ninguém cortará) . E organiza debates com este pessoal. Pedro Maia   insiste no estudo do Banco de Portugal sobre a evolução dos vencimentos na Administração Pública entre 1995 e 2005, obviamente desactualizado em função do congelamento e da modificação do sistema retributivo.

https://ivogoncalves.wordpress.com/2010/10/08/os-cortes-nas-remuneracoes-do-sector-publico-sao-para-ficar/

Já disse aqui o que  pensava sobre os cortes na  Administração Pública. Além do mais criam maus hábitos aos Ministros das Finanças que só sabem cortar em grandes números.

https://ivogoncalves.wordpress.com/2010/10/22/salvo-regresso-de-melhor-fortuna/

Pretendia comentar os cortes nas empresas públicas, mas aqui João Vieira Pereira teve há algumas horas o desgosto de ver o PS abrir na Assembleia a porta à não aplicação dos cortes.

Para alem dos aspectos legais – aplica-se aí o Código do Trabalho –  não se percebe, para além de fazer sentir aos funcionários públicos que não estavam sozinhos (e por mim sou tão invejoso como a média) , qual o efeito útil dos cortes. Reduzir indemnizações compensatórias às empresas de transportes e à RTP, certamente.  E as empresas lucrativas, entregavam um maior valor em dividendos ?

Mas a medida já caiu, ou melhor, admite excepções. E foi, não o duvidemos, o primeiro resultado da greve geral (e da greve da CGD, e da greve da TAP) na própria véspera desta.

PS :

Uma quarta hipótese para João Vieira Pereira: Eliminar a taxa social única a cargo ds empresas ( ou reduzir substancialmente), elevar a dos trabalhadores (não é preciso ir até aos 35 %, o financiamento via IVA ou impostos sobre os activos poderá complementar a receita dos descontos).  Reduz os custos de salários para as empresas, reduz o défice, reduz o rendimento disponível dos trabalhadores, mas não precisa de se alterar a legislação laboral nem de criar conflitos em série no Estado e nas empresas.  Se a Segurança Social tiver excedentes volta, como nos tempos da outra senhora , a subscrever títulos de dívida pública a taxas mais baixas. Percebeu ? Também sei brincar aos economistas quando tenho uns minutos para me sentar e escrever umas linhas.  O problema é que a sua agenda  é capaz de ser outra.

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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2 respostas a Os caça – salários

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