Servirá a greve geral para alguma coisa ? E, já agora, terá adesão ?

Há o sentimento geralizado  de que a greve geral será inútil em termos de alteração da proposta de lei do Orçamento do Estado para 2011.

As próprias confederações sindicais, como se percebeu, sujeitas a intensa pressão mediática tal como a generalidade dos portugueses, não quiseram apelar à rejeição da proposta de lei.

Aliás a pretensão , muito global, e muito justa, de se preocuparem com a situação da população em geral, designadamente dos contribuintes,  dos beneficiários de prestações sociais, dos trabalhadores que hipoteticamente reencontriam emprego se fossem prossseguidos os projectos de grandes obras públicas, limita-as em relação a uma crítica mais radical dos cortes de vencimentos dos quadros, o tal corte “médio” de 5 % que para os “privilegiados”, designadamente os magistrados e  os professores do ensino superior e investigadores, chega em muitos casos aos 10 %.

Por outro lado, para não dar a ideia de que aceitam a proposta, também não lhe propõem a introdução de emendas, nem que seja incluir nos artigos sobre os cortes de vencimentos a precisão que existe em muitos outros “Em 2011…” Ou a estipulação de que para efeitos de indemnização por caducidade de contratos, subsídio de desemprego, aposentação, se consideraria o nível de remuneração auferido em 2010.

Tal formulação seria mais consentânea com a ideia de que em 2011 poderia haver renegociação, que Sócrates ainda afirmou, mas Teixeira dos Santos rejeitou. E não interessa a Pedro Passos Coelho que, quando for primeiro ministro, herdará uma situação consolidada.

E será que, nestas circunstâncias,  a adesão vai ser elevada ?  Quanto ao sector privado, sabe-se que as Confederações Sindicais têm pouco peso. No sector empresarial do Estado em que as medidas são vistas como absurdas e ilegais (voltarei a isto)  e, como a comunicação social já referiu, atingem mesmo os trabalhadores pior remunerados, é provável que a adesão seja altíssima. Na Administração Pública os trabalhadores menos qualificados e que auferem menos de 1 500 euros por mês devem ter respirado e (a “economia da inveja” explica-o)  até sorrido com os cortes que atingiram os “senhores doutores”.

A convergência CGTP – UGT remove um dos pretextos habituais para a não adesão mas, se as duas confederações estão unidas na assinatura do pre-aviso e têm moderado a sua linguagem, não parece evidente a existência de uma cooperação e de uma coordenação orientada para o êxito da greve sector a sector, local de trabalho a local de trabalho. Onde estão os comunicados conjuntos, e as comissões de greve conjuntas ?

Apesar de tudo, Torres Couto, nas declarações ao último Expresso, tem razão: faz sentido fazer a greve para reforçar o peso negocial do mundo do trabalho e do movimento  sindical.

Mas a CGTP e a UGT, ambas filiadas na Confederação Europeia de Sindicatos, deveriam ter começado a trabalhar há mais tempo nesse sentido, se o tivessem feito o episódio da manifestação europeia não teria exposto tão dramaticamente a sua irrelevância.

https://ivogoncalves.wordpress.com/2010/09/30/a-manifestacao-da-confederacao-europeia-de-sindicatos-e-a-contra-manifestacao-do-conselho-de-ministros-do-governo-portugues/

E terão de trabalhar muito mais e muito melhor para a greve, e, mesmo que ela seja um sucesso, para o day after.

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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