A palavra “Governo” no discurso sindical – considerações gerais e exercício de aplicação

A comunicação sindical utiliza frequentemente, nalguns casos até à exaustão,  a palavra “Governo”, para informar, para criticar actos ou omissões, para atacar políticas.

Nas mensagens que visam puramente informar, o Governo surge como órgão de soberania, como órgão superior da Administração Pública, como parceiro em sede de concertação social.

Nas mensagens  que visam criticar actos ou omissões  ou atacar políticas o Governo surge como inimigo, como factor de perturbação, como fonte de todos os males, o que, no contexto do jogo político gera a leitura de que as organizações sindicais desejam a sua substituição e até à realização de eleições com diferentes resultados eleitorais. 

Para os dirigentes das  organizações sindicais mais directamente influenciadas pelo PCP parece viver-se numa mobilização constante contra os governos de direita, ou contra os governos com “políticas de direita”, e na convicção de que os trabalhadores, enganados como habitualmente nas últimas eleições, corrigirão o voto nas próximas. Depois das eleições, com ou sem mudança de governo (é claro que o governo muda sempre mas o que está em causa é o governo do partido X ou Y) , verifica-se que os trabalhadores voltaram a ser enganados, mas o ciclo recomeça. Os sindicatos da função pública vão mais longe do que os outros, e identificam os partidos inimigos.

O que é curioso é que o mesmo tipo de comunicação acaba por ser adoptado por dirigentes sindicais que não têm a mesma matriz política,  e por dirigentes e organizações que nasceram e estão fora do jogo político corrente. Assume-se que os sindicatos “falam assim”, e a comunicação sindical que influenciam acaba  por  utilizar  o “Governo” a torto e a direito.

Repare-se que, resultando os governos de um processo politico em que muitos trabalhadores – eleitores têm as suas convicções e as suas opções, este tipo de incartades  deveria custar caro aos seus autores, através da  formação de listas de sócios indignados pelo abuso do mandato sindical, ou pelo menos em termos de sindicalizados.   No entanto, depois da  consumação a partir dos anos 1980 da cisão sindical, cada corrente política construiu os seus sindicatos e quem está filiado mas não se identifica  com o estilo de argumentação vai acabando  por lá ficar.

Nos tempos em que fui membro de Direcções do SNESup defendi  uma grande contenção na linguagem sindical,  que fez muitas referências ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, ao Ministério das Finanças, ao Primeiro Ministro, ao Conselho de Ministros, ao projecto de decreto-lei, à proposta de lei, ao Estado, mas muito raramente ao “Governo”. Por uma tripla ordem de considerações:

– primeiro, o SNESup  comprometeu-se estatutariamente desde a sua fundação, a respeitar no quotidiano as convicções políticas dos seus associados, que são supostos serem membros de um escol intelectual  e não precisarem de ser “conduzidos”;

– segundo, por razões de diferenciação de imagem: sendo um sindicato com reputação de sindicato combativo (e não muito amado em certos círculos), não se trata de um sindicato partidariamente conotável;

 – terceiro, por razões de eficácia comunicacional – um texto que se pretende ponderado, elevado e orientado para o futuro perde em princípio eficácia se encimado por um título ou um assunto do tipo “contra as medidas do Governo”.

Sei que na actual Direcção do SNESup há outras opiniões, e aguardo com expectativa a substituição no site de “SNESup – 20 anos – um sindicalismo diferente” por “SNESup – 21 anos – finalmente, um sindicato como os outros”.

Como exercício de aplicação, chamo a atenção para a evolução do Caderno de Encargos recentemente publicado, inicialmente   divulgado como uma seca enumeração de questões que o “poder político” deveria esclarecer ou resolver, sendo a referência ao poder político, muito monotonamente, repetida em cada item, e que veio a ser aprovado com um preâmbulo em que, claro está, se tinha de falar do “governo”.

forumsnesup.wordpress.com/2010/10/27/deliberacoes-do-conselho-nacional/

Devo dizer que o preâmbulo está muito bem redigido e comunicacionalmente equilibrado.

Não se deverá perder de vista, embora, que todo o processo tem revelado que não é apenas o governo português mas o principal partido da oposição, o Presidente da República, uma grande parte dos economistas e dos opinion makers , a banca (o jornal do BE escreve que pela primeira vez uma greve geral tem um inimigo bem definido: a banca !!! ), as confederações patronais, and, last but not the least, a Comissão Europeia, que apoiam a factura colocada aos trabalhadores do sector público, o que indicia que os juizes politicamente designados do Tribunal Constitucional não levarão entraves. As próprias confederações sindicais hesitam no seu discurso.  

Em rigor as medidas “propostas pelo governo português” são medidas já assumidas pelo “poder político” por muito que o termo tenha , ao que parece, suscitado engulhos.

Seria é estulto, e ainda bem que não foi feito, ter substituído “poder político” por “governo” no caderno de encargos. É que as clarificações pedidas e as definições solicitadas ultrapassam a capacidade de decisão de um governo que se percebe que está a prazo, e até do conjunto dos órgãos de soberania.   O destinatário é neste caso mesmo o “poder político” seja qual  o sistema de órgãos e poderes de decisão que o venha a corporizar.

Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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2 respostas a A palavra “Governo” no discurso sindical – considerações gerais e exercício de aplicação

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