Os professores, responsáveis pela crise orçamental ?

 João  Vieira Pereira , Director em tempos do agora defunto Semanário Económico, escreveu no  Expresso de 11 de Setembro, sob o título “A Grande Mentira” , o seguinte:

“….Governo, que mal tomou posse crucificou a antiga Ministra da Educação e comprou a paz com os professores. O custo foi de 225 milhões de euros, tanto quanto subiram as remunerações com o pessoal na educação entre Janeiro e Julho deste ano quando comparado com o mesmo período de 2009…E é esta a contribuição de pessoas como o líder sindical Mário Nogueira para o empobrecimento do nosso país. Um crime bem mais grave do que muitos que se tornaram mediáticos mas que nunca serão julgados. Dizem-me que são os custos da democracia. Discordo. É o custo de ter uma classe política que se verga perante pessoas irresponsáveis que, sem saber como, detêm um poder com o qual não sabem, nem nunca saberão lidar.

……………………………………………………………………………………………………………………..

O país inteiro só vai perceber que é preciso mudar quando chegar o dia em que o Estado não tenha dinheiro para pagar salários. E esse dia está muito mais perto do que parece.”

A imputação da subida das despesas ao acordo com os sindicatos de professores tem sido referida em alguma comunicação social. E até no debate realizado em 21 de Setembro na Ordem dos Economistas, de que dei conta aqui, Alberto de Castro, ressalvando embora ser inútil chorar sobre leite derramado, referiu este acordo como um dos possíveis factores de agravamento da despesa.

Ainda vai ser dito que não se paga subsídio de Natal em 2010 por causa dos sindicatos de professores e do emblemático Mário Nogueira ?  Já nada me surpreende…

Há aqui questões de fundo que ficarão para outros posts.  Quero de momento fazer apenas alguns reparos em termos de gestão:

– por um lado, se estava assumido que o período de 2004 a 2007, e o que, posteriormente a esses anos,  haveria de decorrer até à definição do regime retributivo das carreiras especiais, iria contar para progressão no novo sistema retributivo, foi apressado e mistificador afirmar que a contenção dos pagamentos  a pessoal em 2005, 2006, 2007, 2008 e 2009 correspondia a uma “poupança” consolidada (conter “pagamentos” não é conter “custos”, coisa que os políticos não aprendem nem querem aprender);

– por outro lado, quando foram feitas as negociações com os sindicatos de professores,   alguém deveria ter feito a projecção do impacto financeiro (o “cabimento”, obsoleta prática do “Estado burocrático”) em 2010 e anos seguintes.

O responsável aqui não foi certamente Mário Nogueira.

A federação sindical que este lidera negociou aliás na revisão dos estatutos do ensino superior um esquema completamente diferente: remissão do regime de progressão salarial, para  depois da aprovação de regulamentos  pelas instituições (muitas das quais ainda estrebucham com dificuldades na sua definição e aplicação), progressão obrigatória apenas após seis anos de classificação máxima, condicionamento das progressões a disponibilidade orçamental.

Com um bocado de “sorte” a maioria do pessoal docente do ensino superior apenas em 2011 começará a ver contabilizados os pontos para mudança de posição remuneratória, e nessa altura não haverá dinheiro.

Se algum tribunal vier a julgar Mário Nogueira pelo “crime” de que o acusa João Vieira Pereira, aqui estão circunstâncias atenuantes.

Advertisements

Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Esta entrada foi publicada em Cidadania, Ensino Superior, Gestão, Movimentos sociais. ligação permanente.

4 respostas a Os professores, responsáveis pela crise orçamental ?

  1. Pingback: Os professores, responsáveis pela crise orçamental ? « Fórum SNESup

  2. Pingback: Pela Blogosfera – Comunicar « A Educação do meu Umbigo

  3. AMBordalo diz:

    Pois… pois… pois…

  4. Pingback: Receita(s) repetida(s) « (Re)Flexões

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s