No debate da Ordem dos Economistas, os receios da banca

Terminei o meu post anterior com:

“Esse limite parece estar a chegar para Portugal, pelo menos num contexto em que, num momento em que o Estado enfrenta  dificuldades, o sistema financeiro no seu conjunto tem igualmente dificuldade em financiar-se”.

Portugal tem, desde que Miguel Cadilhe foi Ministro das Finanças e Tavares Moreira Secretário de Estado do Tesouro, uma gestão de dívida pública assente em programas bem estruturados, que são desde há alguns anos elaborados e geridos de forma rigorosa e profissionalizada por um organismo criado de raiz, o Instituto de Gestão de Crédito Público, que agora gere também a tesouraria.

Desta forma se tem colocado, sobretudo desde a integração no euro, dívida junto de investidores estrangeiros, em boas condições de taxa de juro, com prazos alargados, sendo que a imagem “da República” assim gerada também beneficia o financiamento da Banca.

Percebe-se pela comunicação social que a dita Banca está nervosíssima com a actual situação da dívida pública e está a pressionar o Estado a adoptar soluções drásticas para reduzir as suas necessidades de financiamento. Se o Estado é responsável por metade do  endividamento externo, a Banca e os privados são responsáveis pela outra metade e enfrentam também dificuldades em refinanciar-se.

Cristina Casalinho, economista do Banco BPI, fez hoje de manhã no debate da Ordem dos Economistas sobre o OE para 2011 uma bem documentada intervenção que explicitou estes receios.

A propósito referiu que, para que o Estado mantenha o nível de endividamento líquido de 2010, teria de ter em 2011, 2012 e 2003, um saldo primário do orçamento, definido como receitas correntes menos despesas correntes (excluindo juros) superavitário  da ordem dos 3 % ao ano. Ninguém acredita.

Mas há outro risco para a banca, do qual nem se tem falado, e que tem a ver com a possibilidade, ao menos teórica, de o Estado, em vez de se basear unicamente na colocação de emissões a 5 e 10 anos junto dos mercados usuais, passar a tentar financiar-se junto dos particulares, já não através dos Certificados do Tesouro (que meramente reproduzem as condições alcançadas por produtos  do Tesouro para os mesmos prazos, sem contudo serem transaccionáveis).

Olhando-se para as taxas de juros de depósitos e para os módicos rendimentos de outros produtos comercializados pela banca, percebe-se que o Estado poderia, por exemplo,  colocar facilmente dívida a 3 anos em condições mais favoráveis do que as que vem obtendo nos mercados usuais e diminuir a sua exposição nestes.

Mas seria a “morte” da banca, e, de qualquer forma, duvido que o Ministério das Finanças e o Instituto de Gestão de Crédito Público vão por aí.

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Sobre ivogoncalves

64 anos Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia, Mestre em Administração e Políticas Públicas pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Doutor em Sociologia, especialidade de Sociologia Política, pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Detém Diploma de Estudos Avançados (3º Ciclo) em História Moderna e Contemporânea da mesma instituição. Domínios de actividade profissional: Gestão Orçamental Pública, Auditoria e Fiscalização, Recuperação de Empresas como dirigente, técnico ou consultor e formador. Outros domínios de interesse: Sistemas de Informação. Docente do ensino superior de Setembro de 1976 a Maio de 1985 no Instituto Superior de Economia, e de Outubro de 1985 a Julho de 2010 no Instituto Superior de Gestão (integrado actualmente no Grupo Lusófona). Membro nº 15 da Ordem dos Economistas. Pertence ao Colégio de Economia Política e ao Colégio de Auditoria. Membro nº 1385 do Instituto Português de Auditoria Interna. Sócio nº 20831 da Sociedade de Geografia de Lisboa.
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